The Good Wife 6x03 - Dear God

Com esse episódio, o querido Deus fez brotar a semente da procuradoria dentro de Alicia

The Good Wife é uma série sacaz e sacana, especialmente quando joga com metáforas. O objeto do caso dessa semana representa tudo o que Florrick, Agos and Lockhart (FA&L) é: uma semente que parenta ser pequenina, mas tem muita potencialidade e vida por dentro. As similaridades ficaram mais fortes durante os encontros com a oficial Joy Grubick. Esta me enganou direitinho; por fora era implacável e arrogante, mas por dentro tinha compaixão.

Tanto Cary, Alicia e Diane representaram o casco-armadura da semente modificada geneticamente. Externamente, eles sustentam a força e a consistência da firma contra qualquer intempérie. Eles negam embates e discussões, embora a tensão e a pulsão estejam altas. Não que isso seja prejudicial, muito pelo contrário. São esse impulso e as motivações internas que empurram os ramos desse grupo rumo ao céu, conforme prega a parábola bíblica do grão de mostarda.

Além disso, gostei de ver a disputa litigiosa se resolvendo fora do âmbito judicial, sem intermédio dos representantes legais. Está aí uma prática que deveria ser mais comum. Afinal, advogados manipulam, tiram de contexto, subvertem. Nas palavras de Alicia, eles “selecionam e escolhem” o que vão usar. Nesse quesito, a conversa da protagonista com Grace apontou as artimanhas do meio jurídico (ou de qualquer campo que queira argumentar e convencer como o religioso e o político). Foi um diálogo interessante ao mostrar que já existe um arquétipo de substituta à nossa boa esposa. Brotou sim uma semente de ‘Alicia’ dentro da filha. Esta aparenta estar cada vez mais madura e articulada, pronta pra desabrochar.

A resolução externa, sem mediação, também sinaliza, de maneira sábia, que essa questão de se concorrer ou não vai se resolver fora da FA&L. Mesmo que os sócios discutam, que jornalistas liguem pra Diane, que apoiadores procurem a miss state attorney (depois de Sant Alicia e disputed warrior princess, ela ganha mais um apelido), a decisão sairá simplesmente de dentro da protagonista. Eli pode dissimular, mas nós sabemos que tudo se trata dela, pois até pra Cary sobrou. Afinal, sua acusação de transporte de drogas é uma retaliação a impedir que a parceira saia como candidata. Como será que ele vai reagir quando perceber que foi um bode expiatório?

Se até a famosa ativista Gloria Steinen resolve se meter e orientar, ao enxergar uma boa procuradora, é muito natural se começar a sonhar. Adoro essas artimanhas a la ‘Six Feet Under’ que nos mostram as divagações e daydreams da nossa protagonista. Com essa participação real, podemos sonhar com uma figuração de Hillary Clinton? Acho que não, ela é uma grande presidenciável nas eleições de 2016, seria tomar muito partido.

Apesar de ter gostado do ritmo, do desenrolar e do fluxo da história, tem uma questão que me incomodou: o futuro profissional de Kalinda. Ela foi ou não foi pra FA&L? Ou virou trabalhadora autônoma? Se está agindo com Cary e Diane, então na finada L&G, ela não está mais. No fundo, eu só queria que ela e Alicia resolvessem conversar e podar os ramos podres do passado. Porém, a advogada é orgulhosa quando pisam no calo dela, enquanto a investigadora é fechada e não fala de assuntos emotivos e internos. No entanto, foi satisfatório vê-la, como sempre, fiel à própria justiça. Ela delatou o informante a Bishop, mas deu oportunidade para ele fugir.

O embate final entre os futuros candidatos ao cargo foi muito tenso, totalmente trabalhado no rosto. Naquele momento, em suas facetas, por breves segundos, ambos abaixaram a guarda, revelando os trunfos, as armas e as disposições. Por mim, Alicia deveria ter descido do salto e dado um tapa em James Castro por utilizar a morte de Will de maneira tão vil. Adoro quando fatos tão impactantes ainda reverberam no decorrer da série. Usando a metodologia infantil do reverso, na verdade, o atual procurador tornou o terreno mais fértil para a aceitação dela em disputar o cargo. Assim, o término do episódio deixa um gancho para nós, pois a semente claramente foi lançada. Resta saber como se dará todo o caminho até a colheita, digo, até o dia da votação.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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2 comentários:

  1. ótima análise!
    A maneira como a história está sendo conduzida até faz nascer uma torcida para Alicia concorrer! (o que, no final da temporada passada, era uma possibilidade bem impopular).

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    1. Obrigado, Lucas. Eu confesso que não via com bons olhos a escolha dela em concorrer. Porém, começo a aderi-la.

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