The Good Wife 6x04 - Oppo Research

Um simples encontro foi capaz de devastar e abrir mais sulcos na história de Alicia

Esse foi um episódio revigorante. A escavação dos esqueletos de Alicia nos brindou com surpresas, revelações, entendimentos e podres, mas também momentos brilhantes. Muito mais que ossos e carcaças, nós nos deparamos com mais nuances e preciosidades durante esse esburacar.

Me surpreendi com as viradas que Oppo Research trouxe, considerando-o digno de figurar na lista de melhores, por causa do enredo e das amarras, pois uma coisa foi se ligando a outra. E a primeira veio por meio do filho exemplar Zach. Na minha família, há uma forte profecia-anedota: o rebento mais correto, dedicado e especial, na verdade, é aquele que vai fazer os pais chorarem lágrimas de sangue (não vou mentir, eles ainda esperam que eu seja catalisador de tal jorro). Enquanto a contestadora e religiosa Grace tinha tudo pra ser um pedregulho no caminho da campanha, na verdade, o mais velho revelou-se como o impuro, ou melhor, o ouro dos tolos nessa escavação: brilhante por fora, desprestigiado por dentro. Apesar de choque para a protagonista, pra mim foi deleite puro.

Com isso, me recordo do pedido de Alicia aos filhos, na segunda temporada, quando ela colocou Peter pra fora de casa ao saber da noite de amor com Kalinda: devemos ser honestos entre nós, apesar de nos ser lícito mentir e ocultar a realidade perante os de fora. É por isso que a admiro. Há certa regularidade em suas ações. Mesmo os deslizes são justificados com o caráter da personagem que, conforme suas palavras, só quer clareza; ou, lembrando momentos passados, busca ser feliz e controlar o destino. E foi exatamente o que fez. Ao descobrir do aborto, ela resolve dominar os estragos, embora tenha parecido uma forma de autodefesa, visível com as recusas de atender o retorno do filho. É muito ruim ver minar a confiança em quem se ama e tinha tanta estima.

Como numa grande área de escavação, não só o centro, isto é, Alicia, sofreu com a procura pelo passado comprometedor. A relação com Owen pode ter estremecido. Confesso que ela foi muito careta tanto na forma de abordar o assunto quanto na dispensa da presença da mãe. Contudo, o maior impactado tenha sido Eli. Da maneira mais estranha e inesperada, o estrategista percebeu que nem sempre é possível enxergar o lodo pardacento das profundezas pessoais de alguém. Ele sabia da tensão Peter/Kalinda, mas não foi sagaz quanto ao ocorrido; ele via a tensão Peter/estagiária, mas não aprofundou para descobrir que tudo era fruto de um inocente pedido.

A cadeia de impactados pelos pontos fracos de Alicia também atinge Finn. Não vou negar que torcia pelo envolvimento de ambos. Porém, a conversa e o flerte descabido e aberto foram incomodantes. Espero não soar hipócrita, mas com Will, sabíamos a situação do casamento com Peter mais a história de bad timing pra torcer pelos dois. Finn ainda é uma lavra obscura. Afinal, não consigo torcer e tomar partido sem ter conhecimento da vida pessoal dele. É, sou conservador sim, o status de casado vira impeditivo pra mim em relação aos dois. Aproveito para apontar que ainda espero certo envolvimento entre Alicia e Johnny Elfman, até porque não sou capaz de dissociar o ar tão galante que presenciei de Steven Pasquale nos palcos da Broadway neste ano, em ‘The Bridges of Madison County’. Porém, vamos deixar os sedimentos desse primeiro contato assentarem primeiro.

Para provar que não só os advogados são ardilosos, Lemon Bishop provou-se um estrategista topográfico de primeira nesse vulcão chamado Alicia Florrick. Foi uma sacada de mestre. Ele sai da Florrick, Agos and Lockhart, porém, mantém-se atado a eles por meio daquilo que lhe dá muito poder, o dinheiro. É claro que a inciativa de criar a campanha de arrecadação não ofende ao Princípio tributário do Non Olet: qualquer tipo de provento não tem cheiro. Contudo, esse rendimento à candidata tem sim amarras, e bem perigosas, Kalinda que o diga ao ter entrado no carro de Bishop.

Sei que me estendi nessa análise por ter achado a história extremamente efervescente, principalmente, pela metalinguagem. Se não bastasse tanta inventividade narrativa, The Good Wife resolveu inserir e desenvolver dentro de si uma série fictícia, que, pra mim, acaba revelando muito do que se passa na cabeça dos criadores. Creio que mais acontecimentos impactantes (o tiro cruel a queima roupa, com o cervo, no caso nós, apenas olhando passivamente, sem poder fazer nada, é forte indício de que há muito a ser revelado) a nos torturar e a gerar mais embates e análises de significados. Só digo uma coisa: que venham mais preciosidades durante essa história, estamos aqui para usufruir de tudo o que transbordar desse rio ou buraco caudaloso.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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4 comentários:

  1. Genial! Não canso de repetir: melhor texto sobre a série, sempre e a cada semana!

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  2. Respostas
    1. Caro Lucas, agradeço a sua presença, significa muito. Se quiser debater qualquer coisa, estou na área.

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