The Good Wife – 6x08 – Red Zone

Assim como Alicia no ariar da panela, 'Red Zone' tirou o excesso pegajoso e abrilhantou o desenrolar dos personagens 
Após muita comicidade e inconstância, The Good Wife retoma sua densidade, colocando todos os personagens numa zona vermelha de reflexão, intempestividade e especialmente recuos. A meu ver, apesar de próprias, as tramas mescladas no pessoal e no profissional de Alicia, Cary e Kalinda foram construídas num mesmo reflexo, isto é, configuraram-se metaforicamente como verdadeiros espelhos umas das outras.

Senti que os mesmos ensinamento e diretrizes tendem a servir para os dois advogados e a investigadora. A beleza, portanto, desse episódio foi nos brindar com uma construção tensa e peculiar para cada um deles, ao vivenciaram o difícil questionamento do tido como infalível modo operandi próprio. Os três começam seguros na forma como costumeiramente lidariam com os problemas, porém, perceberam que deveriam aceitar a falta de controle em tudo e confiar na ajuda externa. Isso são sinais de aprendizado, de mudança.

Com Alicia, nossa “Maria Antonieta” do século XXI, ela enfim aceitou a imposição de Eli. Acostumada a ser coadjuvante, apenas a boa esposa do candidato Peter, ela acostumou a bater de frente com o estrategista, sempre tentando se impor. Não foi à-toa que ela pegou e desenvolveu o caso do estupro no campus, ela é uma contestadora. Até que uma pedra em forma de mera participante numa pesquisa de opinião faz com que a candidata questione o que realmente é. Assim, como sempre parte pra ação, a protagonista tentou fazer caridade na sopa dos pobres, sendo que o importante, conforme Mr. Gold está careca de saber, é a aparência. De nada adianta agir, pois vale aquilo a ser apresentado para consumo do público apenas.

O interessante desse arco foi a dualidade de ações. No campo público, Alicia acata Eli. Afinal, é irremediável: uns detestam a fidelidade perante Peter, outros gostam dessa solidez; muitos vão enxergar a competência e ousadia de quem abriu o escritório; outra parte a verá como uma egoísta que se acha a dona da verdade com direito a tudo por causa dos sofrimentos. Por isso, é importante posar, construir e blindar uma imagem. No entanto, no pessoal, ela não se rebela contra seus princípios, ao não se importar se deveria se afastar do astuto Canning. Com a solidariedade de Alicia, ambos puderam ser imagens verdadeiras e reais de apoio. Foi bonito de se apreciar tal intimidade.

Para Cary, graças à maternal sócia, a constatação de que advogados se tornam péssimas testemunhas foi assimilada antes do julgamento. Assim, ele pode visualizar o quanto as ações e as falas às respostas bem articuladas da outra diva Viola Walsh soavam como culpa e problema. Antes da aceitação, ele se arriscou procurando Kalinda e gritou com Diane, tentando, então, autodestruir as defesas, pois nada me tira da cabeça de que a retomada do caso de amor da investigadora com a agente do FBI é puramente motivada pelo interesse em ajudá-lo. Só que ele não foi capaz de vislumbrar mais uma artimanha dela, que esteve lindíssima e fatal, como há tempos não se via, com os cabelos soltos.

Falando em Kalinda, as rachaduras entre a aproximação com Bishop ficaram mais evidentes. Com o esquisito cartão branco, o relacionamento deles passou pra outro nível, sem mais ameaças veladas. Confesso que fiquei muito tenso com a ida ao banheiro a fim de sabotar Lana, porque, como expectador antigo, diante de um sopesar de princípios, aposto sem titubear que a justiça fala mais alto que autopreservação pra ela. Acostumada a lidar com o traficante, ficou claro à investigadora que as regras precisam mudar. Assim como objeto a ser implantado na carteira, é a hora de quebrar essa imposição de perigo.

Depois de alguns descontentamentos no conjunto interno dos episódios anteriores, “Red Zone” me agradou muito. The Good Wife sempre aparentou ser uma rica e coesa ilustração televisiva de assuntos e personagens sérios, burlescos, leves, obscuros, exagerados e simples, tudo muito bem dosado. Esse conjunto de detalhes como acessório tende a ser brilhante. Contudo, quando algum desses itens toma a frente como nos momentos anteriores desse sexto ano, tal construção me incomoda. Afinal, esse drama sempre nos cativou com ironia (achei fantástico criticarem a protagonista com uma simples panela, já que isso foi parte de seus afazeres por tanto tempo antes do escândalo inicial), com a sutileza, com os vínculos. O escancarado nunca funcionou por aqui. Por isso, atesto que na reta final de 2014 (faltam dois episódios para o iatus do fim de ano) a série saiu da zona vermelha com muita consistência.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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