The Good Wife 6x10 – The Trial

Sexta temporada começou e terminou com injustiça para Cary: primeiro a detenção, depois a condenação
Perdemos. Simples assim, claro assim, por meio de um veredicto negociado, tão comum nos EUA (a título de curiosidade, 90% dos casos criminais lá são resolvidos pelo plea bargain, modalidade de acordo entre a promotoria, que suaviza a pena, e o acusado que simplesmente assume-se ser culpado e, assim, promove-se a celeridade da máquina judiciária). Tanto ficção e seus personagens, quanto nós, meros espectadores, saímos privados e punidos pela resolução da trama de Cary, iniciada no primeiro episódio dessa temporada.

Num mundo cada vez mais capitalista, consumista e marcado pelo status, assumir a perda é um sentimento difícil. E conforme a cena inicial do episódio, acolher e compreendê-la tornam-se pavimentos de um caminho puramente solitário. A jornada heroica, mesmo que influencie toda a coletividade, é individualista: o heroi age, decide e sofre as penitências sozinho. Alicia, Diane e Kalinda podem se emocionar ao se tornarem viúvas novamente com o encarceramento e a ausência, no entanto, é o bode expiatório Cary quem vai pagar a penitência.

The Good Wife costuma ser uma série cheia de artimanhas e reviravoltas. De maneira inusitada e brilhante, o caos se pacifica, as tormentas são acalmadas. Tudo é quase sempre superável, mesmo com sutis repercussões. Isso já é uma expectativa de direito para nós, a platéia. Contudo, quando a série resolve ultrapassar o acordo, mostrando o modo implacável, injusto e irremediável da vida, temos episódios como esse que nos choca, nos tira o fôlego, nos decepciona e nos encanta.

Por isso, sinto que perdi um pedaço da essência da série, ao me enganar novamente com uma justa resolução. Tinha uma fé de que Cary sairia dessa, a contar inicialmente pelas tantas distrações rondando  o julgamento. Confesso ter achado desnecessário tanto foco na intimidade de peças tão acessórias no caso: o juiz e a busca por ingressos; a promotora Geniva e seus rolos pessoais; e o jurado parcialmente surdo. Esse panorama, mais Kalinda em ação, parecia uma fórmula certeira de resolução. Não, não foi bem assim.

A investigadora vivenciou dois momentos-chave, um tenso e outro desesperador, enquanto lidava com Bishop. Primeiramente, no reduto do traficante, ela fez uma jogada ousada ao ameaçar a custódia do filho. Lembram-se do que ele supostamente fez com mãe do garoto na separação deles? Aparentemente a ex-senhora Bishop teve uma recaída e uma forte overdose, deixando o traficante como único genitor do garoto. Depois, na corte, ela implorou para que ocorresse mudança de testemunho. Não haveria, pois era a forma de se aprender uma lição. Só espero que a consciência em justiça de Kalinda a faça destruir Bishop, quero vê-la como uma justiceira agora.

Pela primeira vez, a campanha de Alicia não foi o meu foco central. Até porque, foi um arco desinteressante, até mesmo forçado. A sempre ingênua e pura Grace mostra um bilhete da mãe pra professora de dever cívico para averiguar o teor de uma brincadeira? Como assim? A boa filha tem quantos anos, oito? E a professora retém a nota e ainda suborna Alicia? Ela é realmente professora de ética? Disso tudo, só foi bom o rompimento entre os candidatos. Essa história de amizade e confiança não rende embates, porque drama é conflito.

Ainda sobre a protagonista, ela também perdeu as rédeas do lado emocional. Toda a conversa intrincada com Finn só sinaliza que onde há muita fumaça, há bastante fogo. Embora o encontro na lanchonete tenha sido mais inusitado e sedimentado a confiança entre ambos, a primeira conversa foi bem mais significativa pra mim, pois foi fiel ao que se espera de advogados: negociações, esclarecimentos e acordos. Por sempre lidarem com isso, acabam extrapolando até mesmo para a vida pessoal.

Porém, trabalho é terreno da razão, enquanto vida pessoal carrega emoção. Mesmo que exista um motivo, em nós seres humanos, pra cabeça (razão) estar em cima do coração (emoção), tem momentos em que o órgão pulsante consegue bombear o que intenta e se sobrepor. Somente aguardo esse momento entre os dois negociadores do amor.

Com o hiatus de fim de ano, ficaremos perdidos e recuados, como Cary, até 2015, mais uma vez, prontos para uma nova jornada, talvez obscura, cheia de mudanças de planos para os personagens. No fundo, já não sei mais pra onde a série vai nos levar. Por um lado, decepciona um pouco. Por outro, atesta a genialidade dessa surpreendente série.
Share on Google Plus

About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 comentários:

Postar um comentário