Black Mirror 3x01 - White Christmas



1 episódio. 6 partes. 3 histórias. Algo em comum.

Existe alguém no mundo que consiga falar uma frase sobre Black Mirror sem conter as palavras incrível, genial, inteligente, perturbador ou foda pra caralho? Se sim, me ensinem porque eu vou ser clichê e repetitiva pra dizer novamente: QUE SÉRIE.

Protagonizado por Jon Hamm (Mad Men) - que eu li em algum lugar foi quem queria muito participar de alguma das histórias do Charlie Brooker e acabou sendo um dos maiores motivos então pra esse “especial de natal” existir - o episódio traz três histórias independentes, duas delas narradas pelo personagem de Hamm,  e uma, “a atual”, que reflete parte do contexto dele naquele momento. 



É Natal e numa simples tentativa de conversa, Matthew (Hamm), começa a confidenciar a Mr. Potter (Rafe Spall) um dos motivos que o levaram a estar ali, aparentemente eles trabalhavam isolados do resto do mundo como alguma forma de punição. É quando somos apresentados a primeira história.


PARTE 1 e 2

Eu simplesmente adoro a sutileza (nada sutil) do roteiro dessa série e como eles sempre se superam ao retratar essa tecnologia futurista que bebe e muito, não só do que já temos hoje, como também do que os cientistas apostam para os avanços futuros. Isso sem falar no quanto a série me faz refletir. Eu sou da área de Computação e termino os episódios gritando: DEATH TO ALL MACHINES! Não realmente, mas vocês entenderam.

Aqui vivemos uma era onde Zed-Eyes são implantados nas pessoas - sem opção de voltar atrás após implantação - e é através deles que tiramos fotos, buscamos informações, fazemos streaming do que estamos vendo e até bloqueamos pessoas da nossa vida (mas isso eu deixo pra depois). Numa espécie de Hitch - o conselheiro amoroso, Matthew organiza um grupo de homens em prol de ajudá-los a se dar melhor com mulheres. O grande Q é que todos eles acompanham a aventura do jovem perdido, cobaia da vez, que entrou de penetra em uma festa de fim de ano da empresa, através dos olhos dele. 

O jovem vai bem, consegue a atenção da menina por quem se interessou - que logo se mostra um pouco parecida com ele -, hora por mérito próprio (apaixonei pelo discurso da piscina), hora por conselhos do Matt e demais. O problema é que a menina vem de um passado conturbado mentalmente e pega o jovem “falando sozinho ou com as vozes de sua cabeça" mais de uma vez. Some isso a aquela velha dose de insanidade característica do Brooker e temos uma cena agoniante de envenenamento coletivo acompanhada via internet friamente por Matt e seus companheiros. 


PARTE 3 e 4

Essa talvez tenha sido a minha história favorita e a ideia tecnológica apresentada nela continua no pedaço final do especial. São os widgets que eles chamam de cookie. Sabe o “boom” que estamos tendo em computação vestível, smartwatch, casas inteligentes e tudo mais? Tudo isso atende pelo nome de Computação Ubíqua e é um campo da computação que prega que tudo, absolutamente tudo, ao nosso redor vai se comunicar computacionalmente e que assim sendo, uma das principais características é se tornar sensível ao contexto, ou seja, configurável de acordo com as pessoas e demais coisas presentes em determinado ambiente. É meio como o velho vídeo da casa inteligente que prega que antes de chegar em casa você já “a avisa” e ela liga o som na música que você gosta, descongela sua comida, configura a temperatura e etc. Sim, isso existe e vocês deviam procurar saber mais porque é MUITO interessante.

Mas aí vem Black Mirror e supõe: e se essas configurações fosse nosso próprio consciente? Sim, vamos aqui fazer uma cirurgia de leve pra clonar meu consciente, guardar ele numa espécie de kinder ovo e fazer com que ele - que sabe todos os meus gostos e pensamentos - comande toda essa tecnologia ao meu redor e se antecipe das coisas antes mesmo que eu esteja pronta para delas usufruir. Louco, não é? Isso é BM <3

Só que meu consciente clonado tem consciência, oras, e eu não consigo acreditar que sou apenas código, que não sou eu mesma, ou que não tenho corpo e estou presa pra sempre num objeto oval. Só que meu consciente sofre, enlouquece se não tiver algo pra fazer, se questiona normal e constantemente sobre tudo. É na chantagem do “ócio” e da experiência de passar longos períodos de tempo trancafiado e sem ter objetivo que o personagem de Hamm configura o aparelho e vemos a versão cookie da Greta (Oona Chaplin) pontualmente mexer e revirar uma tela pra organizar a vida do seu “verdadeiro eu”. 

E se no fundo nos deixamos condicionar tanto pelo mundo atual que nem vivemos de fato, apenas seguimos fazendo o que achamos que devemos fazer, o que nos foi passado de algum modo e vamos só passando os dias? 


PARTE 5 E 6  

Acho que essa foi a parte mais óbvia pra quem já conhece Black Mirror ou que pegou as nuances ao longo da primeira fatia do episódio. Era evidente que o Matthew estava ali tentando convencer o Mr. Potter a confessar algo e eu já imaginei isso no âmbito policial mesmo, eu só não esperava que o kinder ovo lá da parte anterior servisse também pra torturar nosso consciente e arrancar dele nossas experiências prévias. O que não ficou claro pra mim é: o consciente clonado afetava o real? Ou seja, o Mr.Potter terá consequências com o “tempo que perdeu” durante a confissão ou até da mini tortura do policial no final? Meu chute é que sim já que o policial diz algo sobre punição suficiente ter na mente a ideia de 1000 anos a cada 1 minuto. Ou seja, sempre damos um jeito de utilizar a tecnologia em seu pior lado também.

E a sacada sobre toda a história de traição/assassinato do Potter foi o temido lance de Bloquear. Imagina só se na vida real a gente podesse fazer com as pessoas o mesmo que fazemos na online? Assim, seria questões de segundos após conhecer a pessoa e já virar sua amiga, já fuçar por entre fotos dos seus momentos passados e de infância, nada de precisar esperar anos de amizade até criar intimidade com a tia e fazer ela tirar do baú o álbum do filho, até descobrir rapidamente a maioria dos seus gostos. Tem o lado prático também, me disse algo que eu não queria ouvir no momento ou com o qual não concordo? Cansei de você, dos seus textos, suas postagens? Te ignoro. Cancelo a assinatura do teu feed. Paro de te seguir no twitter. Te bloqueio

Aqui, a mulher do Potter fica grávida de outro cara e decide simplesmente bloqueá-lo ao invés de encarar e contar a verdade. Bitch maior não encontraremos na tv. E eu fiquei super sensibilizada com o sofrimento dele, de saber que tinha uma filha mas que não era nem capaz de ver seu rosto, já que sim, pra acabar com tudo o bloqueio passava aos herdeiros da pessoa que bloqueou primeiramente. No momento que ele descobriu que ela continuou a gravidez eu já sabia que o filho não seria dele mas que pegada novela mexicana isso do filho ser do japa e ele tomar susto ao ver uma cria sansei, hein? Na pitada sádica e dark da vez nós acabamos descobrindo que após o assassinato do avô, a garotinha saiu pra buscar ajuda e acabou morrendo já que o local era isolado e muito frio.

Matthew, que por sua vez topou a técnica de confissão pra se livrar - do que, necessariamente, nós não ficamos sabendo - recebe como punição pelo ocorrido com o jovem lá na parte 1 e por ter presenciado friamente o assassinato dele a sentença de "entrar no registro" acarretando com isso um bloqueio coletivo. Você pode imaginar um mundo onde ninguém seja capaz de interagir com você e vice-versa? Você sabe que eles existem, eles sabem que você existe mas todo o resto são apenas vultos e vozes indefinidos.
Bom, boas reflexões pós episódio e Feliz Natal


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About Rebeca Barros

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