Season Review: House of Cards, 3ª Temporada

 A Rainha, o Rei e os Peões.

House of Cards trouxe uma 3ª temporada pautada não mais num jogo de xadrez político – como visto na ascensão dos Underwood ao poder e todos os ajustes concernentes -, sim num enfoque às personagens – meras peças de um tabuleiro orquestrado pelo então Presidente da Democracia Underwood; à espera do momento crucial de decretar xeque-mate. Contando com 13 episódios, HoC trouxe à tela o exato momento em que se conquista aquilo almejado ‘no começo de tudo’ e as complicações e desafios para evitar a ruína desse ‘castelo de cartas.’ 
"You have to be a little human when you're the president."

Frank Underwood, o Rei: após aniquilar qualquer ameaça que opusesse seu caminho e a fim de manter seu posto como presidente da Nação de maior relevância mundial, Frank viveu momentos tortuosos para assegurar o cargo. Os níveis de aprovação estiveram tão baixos que seu partido cogitou lançar outro candidato para as próximas eleições e uma pergunta pairou: qual seria o próximo passo pra quem já estava no topo? Tivemos menos interação dele com a câmera e eu acredito que seja proposital para nos manter distantes dos pensamentos mais profundos, pra dar o tom de suspense sobre como ele procederia com Petrov, por exemplo, ou se passaria por cima da decisão do Senado pela nomeação da esposa no importante cargo da ONU. Algumas pessoas dizem que ele ‘amoleceu’, mas eu acredito que, na posição atual, a carnificina não se faz tão necessária ou autêntica; o jogo é frio, camuflado, cerebral e, por vezes, solitário.


A sequência dele na Igreja, cuspindo na imagem de Jesus (e carregando consigo a orelha "I've got God's ear now," enquanto afastava-se sorrindo) ou quando urina na lápide do pai ou profere pra esposa que "without me you're nothing" (mesmo não existindo verdade por trás desta afirmação, uma vez que funcionou melhor como desabafo depois das inúmeras atitudes desastrosas a que ele assentiu por terem sido sugeridas por ela); era o mesmo Francis, sempre será. A diferença consiste na mudança da visão das peças no tabuleiro, ele não mais pode comprar as pessoas com promessas ou ameaças. Ele perdeu sua aliada mais forte nos minutos finais da temporada, no pontapé inicial da campanha presidencial; mas ganhou um olhar especial que, pra mim, definiu sua homossexualidade reprimida – e eu acredito que este seja um tema a ser abordado com maior ênfase na temporada seguinte, uma vez que esta focou no casamento dos dois e Claire nos presenteou com o interessante pedido de encará-la nos olhos enquanto ele a dominasse na cama ou, também, o Yates pode ter enxergado algo nos rasgos superficiais que o Underwood abria enquanto o livro do AmWorks era escrito. Teorias à parte, a certeza é de que a força dele foi diminuída pelo brilho de Claire, ao menos nas linhas do Thomas, e ele não está acostumado a ser visto como sombra; pra ninguém. 

"I've been in the passenger seat for decades. It's time for me to get behind the wheel.”
Claire Underwood, a Rainha: coincidências à parte, a peça mais importante do xadrez foi o destaque da temporada. Depois de a enxergarmos sempre implacável e dona de uma frieza impressionante, percebemos várias nuances ao longo dos capítulos, sem esquecer a essência. Frank tornou-se o homem mais poderoso dos EUA e, enquanto estava disposto a não ser ‘somente um presidente interino’, Claire era apenas a ‘primeira-dama’, título que não a preenchia – a cena dela perguntando ao marido onde era a cadeira dela no Salão Oval foi maravilhosa, aliás. Sendo a única pessoa a dizer ‘não’ a Francis – e tendo um poder de influência gigantesco sobre ele -, ela exige o cargo de Embaixadora da ONU – conseguido por decreto presidencial – mas logo percebe que, apesar de mover-se por todo tabuleiro, não é capaz de pular nenhuma outra peça: a falta de experiência, apesar de ter sido Diretora Executiva da Clean Water Initiative, foi o começo da crise no casamento: as decisões relacionadas ao Vale do Jordão e o trabalho direto com o Embaixador Russo foram primordiais para ruir o laço indivisível que existia entre os Underwood, tachá-la de incompetente e, assim, ainda mexer com a cabeça do Frank – e nas decisões seguintes acerca do país (ponto pra Petrov!) – que, revoltado, diz que nunca deveria tê-la feita Embaixadora para ouvir, em seguida, “I should've never made you President.” 

Sim, ela o fez Presidente e voltou a fazer campanha por ele, mudou a cor do cabelo porque era bom para a aceitação dos votantes, doou sangue, literalmente, pelo marido (e daí veio uma das cenas mais tocantes e vulneráveis da nossa Dama, "what I hate is how much I need us (...) I didn't jump. I didn't step back."); usou seu sarcasmo ao alfinetar a autoridade Russa num brinde “to President Petrov and his little pickle,” e ao constranger o Embaixador do então país ao ser multi tarefas no banheiro feminino; voltou aos tempos de faculdade ao brincar de ‘beer pong’ com a Secretária do Estado Cathy Durant, foi incrível no desejo de libertar Michael da cadeia permanecendo ao lado dele (devastando-se pelo suicídio com a echarpe escolhida para sua libertação) e mais ainda ao fazê-lo ouvir - colocando a própria cabeça em jogo “Michael was willing to die for what he believed in. He was brave, and his voice deserves to be heard. If it weren’t for this unjust law, and ignorance and intolerance of your government, Michael would still be with us. Shame on you, Mr. President.” Claire voltara ao banco do passageiro e, pra ela, isto não era suficiente "no. It's you that's not enough." Dona de si, como sempre fora, respeitando suas convicções, ela escolhe a si mesma e, em meio às primárias, decide deixar o marido, sem aviso prévio, num tom de voz alto e claro: "I'm leaving you.

"See, you're just like me, Frank.”
Viktor Petrov, o Bispo: o Vladimir Putin da ficção roubou a cena! Depois de muito falar sobre a China, a Rússia foi o foco central no que diz respeito a política externa e o Presidente Russo foi um verdadeiro deleite – sendo alvo de pedidos de spin-off por alguns fãs da série! HoC acertou ao fazer uma linha histórica similar entre realidade e ficção, uma vez que Petrov afirma ter conhecido 3 presidentes americanos diferentes e fez alusão ao passado de líder de Estado e membro do KGB. Além disso, o posicionamento sobre as restrições de direitos LGBT, ao ser questionado por Frank, ele responde: "personally I don't care. Is the gay propaganda law barbaric? Of course it is. But religion, tradition, for most of my people its in their bones. This law was passed for them," também há semelhança no que tange às preocupações russas acerca de isolamento no Conselho de Segurança da ONU e o sistema de defesa antimíssil europeu.

Em contrapartida, o “Notputin”, como foi chamado por alguns críticos, é hilário! A maneira como faz diplomacia – e parece mais interessado no vestido de Claire -, a falta de decoro ao beijar a primeira-dama estadunidense e então Embaixadora da ONU num jantar oficial de Estado, a cantoria, a bebedeira... a vodka em garrafa de ouro! Mas ele mostrou-se sagaz, ardiloso e muito inteligente ao criar um plano mirabolante em que uma equipe SEAL dos EUA cairia numa armadilha, ele mexeu com a mente de Frank e ainda o fez destituir a esposa do cargo; culminando numa conversa particular – vestindo coletes e roupa camuflada – numa zona de conflito. Viktor foi uma adição sensacional, fez Underwood – dono do maior ego em atividade – crer que o russo o vê como igual estrategicamente e eu ainda sorrio na história de guerra em que ele corta a garganta de um homem... “You do have a flair for the theatrical,” afirma Frank, coberto de razão! Alokhina (Pussy Riot), em declaração ao New Times e comentando sobre a série, afirma sobre Petrov: "He is too jolly for Putin, of course."

"Sometimes I think the presidency is the illusion of choice." (Frank)
Doug, o Cavalo: Como forma de começar novamente, ele apaga Rachel de sua vida – literalmente – e não mais pode ser visto como um capacho ou um ‘ninguém’ para os Underwood; Doug mostrou-se essencial na corrida pelo poder e tem consciência de que suas habilidades são de extrema valia no processo de reeleição. A primeira imagem da 3ª temporada foi dele e, pouco a pouco, fomos descobrindo o que havia sucedido após Rachel deixá-lo naquela situação. Stamper sempre fora o escudeiro leal dos Underwood, mas sua crítica condição de saúde e longo período de recuperação (adorei o fato de não fazerem disto um milagre) o afastaram do seu posto – coube a Seth ser o peão na linha de frente. Ele não mais era o homem da discagem rápida, ele não tinha mais acesso ao Gabinete; fora esquecido nas preocupações acerca o paradeiro de Rachel. Sim, se Claire foi o nome da temporada, a história por trás de todas as tramas pôde contar com a assinatura de Doug.

O plano era recuperar a sua posição no topo nem que, para isso, ele entregasse a Dunbar as informações necessárias para enfraquecer seu oponente nas eleições representativas do partido, o então presidente. Era um jogo, um em que ele é especialista. Tal qual o Cavalo que faz movimentos em múltiplas direções no tabuleiro, Stamper montou sua própria rede de trapaça num típico jogo político, quando voltou para sua posição de costume na season finale. Antes, sem toda a politicagem, ele teve de lidar com os problemas pessoais, a dor física, o uso de remédios, a terapia, a solidão e o coração partido – e vimos cenas muito simpáticas dele com a sobrinha e o irmão, que, num momento central, parece resumir quem ele é "you've always been running from something.” 
                        "You have to respect your own mortality." (Frank)

Heather Dunbar, a Torre – e a representatividade feminina: eu imaginei um Roque (movimento enxadrista envolvendo a Torre e o Rei), ela tinha uma campanha sólida, era ética, verdadeira nas suas questões e quase me fez levantar da cadeira e fazer campanha também, contou com Doug no time de forma velada, teve acesso ao diário de Claire "if she goes after Claire, I'll slit her fucking throat in broad daylight" e voltou a contar apenas com o suporte da Sharp - sempre elevando o nível do diálogo e da disputa; mas a distância de pontos que era gigantesca foi diminuída, passou pra margem de erro e viu sua derrota nas primárias de Iowa... prestemos atenção, a briga será excelente e pescoço a pescoço na 4ª temporada!

Muitas mulheres são vistas em posição de destaque – desde a ONU à Casa Branca – e eu quero me ater ao exemplo da Dunbar, especificamente. Como Procuradora-Geral, ainda num papel pequeno na temporada passada, foi ela quem investigou o envolvimento de Walker com Tusk e Xander, acarretando na renúncia do então presidente para que Frank pudesse conquistar sua meta. Assim, o agora presidente, queria mantê-la em rédia curta, dando-lhe uma cadeira no Supremo Tribunal Federal para ter uma aliada, mas ganhou uma adversária à altura, alguém que conhece os movimentos no tabuleiro político, todos os jogos de bastidores e as implicações que estes trazem consigo. Tentar usar das mesmas armas que Frank custou-lhe Iowa, mas eu creio que Heather vai fazer muito estrago antes de cair, sendo essa pessoa inteligente, astuta, forte e destemida tal qual Claire – porém com escrúpulos e “sobriedade”, serenidade. A América está pronta para eleger uma presidente? Certamente! Infelizmente (e em prol do futuro da série) não será Dunbar; cuja será derrubada na escolha Democrata para 2016.

"I'll tell you this though, Pop. When they bury me, it won't be in my backyard. And when they pay their respects, they'll have to wait in line." (Frank)
As peças do tabuleiro: as 2 primeiras temporadas foram um xadrez político ao passo que contaram a ascensão dos Underwood no poder - todos os conchavos e desdobramentos; nesta, o enfoque pessoal é latente! Os peões Remy e Jackie, por exemplo, mergulham numa candidatura falsa da Jackie – agora esposa e mãe – num debate de posições controversas de ataque e na desistência para apoiar Dunbar; Remy ressentiu-se por usar a amada e, não sei se por superproteção ou amor próprio, decide abandonar de vez a política após questionar-se "what next? What have I become?".

Thomas Yates, o escritor contratado para romantizar a ideia do AmWorks a fim de vender a filosofia por trás da política, foi uma boa adição e eu acredito que este livro vai causar muito estrago na próxima temporada (Lucas 2.0? Façamos as apostas!) e, com a saída de Ayla, Kate Baldwin (Zoe 2.0?) engrossa o time de jornalistas no pé do Frank e justifica aquilo que Seth ouviu do mesmo: "you kicked out a pit bull and you let in a dragon." Foi legal ver Freddy novamente – agora jardineiro da Casa Branca e a cena dele com o neto foi um tapa na cara! – mas triste por ver Meechum tão apagado. E Gavin? O que, realmente, aconteceu com ele? Antes que eu esqueça, RIP Rachel, você adiou o inevitável enquanto pôde!

"Imagination is its own form of courage." (Frank)

Tabuleiro Político: A fantasia foi cenário para os acontecimentos políticos, uma vez que havia um Presidente Democrata “cortando direitos” sem levar à votação, a omissão do Congresso sobre a nomeação da cônjuge presidencial para o cargo de Embaixadora da ONU durante um recesso, o debate para eleições que não respeita as regras impostas e cria um campo de batalha ainda nas primárias de Iowa, o velho antagonismo Russo (insira Marina Silva falando ‘polarização’), o plano bilateral de enviar tropas americanas e russas para o Vale do Jordão e a mobilização militar do Hamas e do Hezbollah no que diz respeito a Israel, Palestina e Cisjordânia – e a retirada das primeiras tropas a fim de evitar uma III Guerra Mundial; a cura do desemprego com o América Works – retirando fundos da FEMA e rezando para nunca mais existir um desastre natural num país daquela magnitude geográfica. 
Mas nem tudo pode ser desconsiderado e há algo que foi muito bem dito: a proibição da ‘propaganda gay’ na Rússia (e um presidente a cara do Putin!). Nos capítulos 3 e 6 a temática é pano de fundo tanto para reforçar o enredo quanto pra chamar a atenção do telespectador. "Fascist jerk-off! (...) Stop imprisoning people simply because they're gay!(...) Two people, in love, will never be defeated,” os gritos dos ativistas em frente à Casa Branca por conta da chegada do Petrov aka Putin muito pareceram os protestos de 2014 nas Olimpíadas de Inverno de Sochi. E o que dizer da representação das ativistas do Pussy Riot (Tolokonnikova e Alyokhina) no jantar do Estado derramando a vodka trazida pelo Presidente Russo tal qual os donos de bares LGBT fizeram em NY em protesto? “So open to criticism that most of his critics are in prison,” e Michael – o ativista americano gay – que ganharia liberdade em troca de proferir palavras como “I regret my part in exposing minors to nontraditional sexual attitudes,” uma pesada crítica às palavras usadas no contexto real de Putin e seu Congresso, uma vez que, em 2013, a Suprema Corte Russa manteve como Constitucional uma lei que diz proteger “a maternidade, a infância e a família” da homossexualidade - e qualquer semelhança com a realidade brasileira não é mera coincidência. Mais que uma ‘propaganda gay’, HoC vem como um lembrete de que os protestos não pararam em Sochi, não pararam com as Pussy Riot e, nem de longe, serão deixados de lado quando a equidade e a liberdade são postas em xeque. E o que dizer da tirania velada, da Democracia entre aspas do Underwood? Será que Maduro (Venezuela) e Peña Nieto (México), por exemplo, estão reconhecendo seus feitos na tela?
“Together, they rule an empire without heirs. Legacy is their only child.” (Tom)
Consolidando a morte como rotina no caminho ambicionado, percebemos que é difícil sobreviver intacto se seu sobrenome não é Underwood – uma vez que até o Frank sofreu seu golpe mais duro nos minutos finais da temporada. “I'm leaving you,” Claire decidiu deixá-lo e a premissa da união dos dois, naquele casamento que só eles conseguiam fazer funcionar, foi posta em questão. A 3ª temporada de House of Cards funcionou como o epílogo para a 4ª temporada, com Frank pensando em eleição, todas as peças postas no tabuleiro e Claire trazendo o imprevisível Underwood vs Underwood. Por favor, senhor Presidente, faça seu movimento!
"What are you looking at!?" (Frank)
PS.: No episódio 7 (33), aparece o minucioso trabalho dos monges budistas e eu te aconselho pesquisar “Tibetan Monk Sand Mandala”, é belíssimo!!
PS².: O jogo do Frank é “Monument Valley” – o de princesas. Sobre aquele de escapar do cômodo, existem vários vídeos super divertidos sobre, pesquisando “The Stanley Parable”
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About Vanessa Reis

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