The Good Wife – 6x13 – Dark Money

Numa sala cheia com animais empalhados e artefatos selvagens, Alicia também foi uma oferenda ou um troféu na busca por dinheiro

Num sentido conotativo, esticando e alongando as tramas, esse episódio de The Good Wife foi um aquecimento após o demorado e estranho hiato. Apesar das turbulências, senti que, na verdade, era um momento de calmaria camuflado, pois a graça desse episódio de ritmo mais devagar envolveu reforçar o quanto somos camaleônicos, cheios de camadas e dualidades opostas. Como no dia a dia, um personagem (ou uma pessoa real) brilhante e encantador tem sim um lado negro, sendo o inverso totalmente verdadeiro e plausível.

Isso fica evidente com a relação Kalinda e Bishop. Acho surreal a requisição do traficante ser tão ordinária: pegar Dylan na escola. No entanto, a tarefa simplória se mostra perigosa e até mesmo intensa tanto com a ameaça externa do carro que seguia o rebento do rei das drogas quanto com o bullying. Com um situação tão banal, The Good Wife nos lembrou o quanto Kalinda busca ser justa e apaziguadora, primeiro tentando acobertar os medos e as decepções de Dylan, e depois hesitando em revelar sobre a agressão, pois seria natural que um criminoso pudesse retaliar um adolescente por meio da violência. Por outro lado, Bishop quebra nossa expectativa, mostrando que é gente como a gente, ligando para os pais do agressor e se sentindo incapaz como qualquer progenitor descontente e impotente.

Enfocando o bizarro caso da semana, as dualidades também estavam impregnadas. Até porque, os roteiristas resolveram nos brindar (ou brincar) com Dylan Baker dando vida a dois personagens a partir do inescrupuloso Sweeney. O ator inglês e o personagem criado por esse mesmo foram bizarros e interessantes, mostrando gás para a história do pervertido. Apesar de a ameaça ter apimentado a relação, se eu pudesse dar um conselho a Renata, eu a mandaria tomar cuidado. E também a enfrentaria sem medo, obrigando-a a deixar nossa bodywoman mais legal do mundo, Marissa, em paz. Gelei com o interesse casual brotando entre as duas.

Como não poderia ficar de fora desse fio condutor de opostos, Alicia também nos proporcionou uma reviravolta sutil de caráter. É claro que ela tende a ser mais ética que Prady. Contudo, quando ambos resolvem cortejar o ricaço Redmayne, Alicia se omite, usando a conjuntura em seu favor. Outra vez, os vários lados da moeda se exemplificam em alguém: o contribuinte pode ser democrata, mas é extremamente conservador. Por isso, ele se joga aos pés de Alicia e seus atributos físicos, em desfavor do oponente que, aos seus olhos, é simplesmente uma “bicha”.

Enquanto Prady se irrita e se desconforta, mesmo que não parta para o ataque já que desconhece quais pontos lhe tiraram a vantagem, Alicia percebe as razões de sua dianteira (esposa bonita e guerreira que se mantém ao marido versus homossexual liberal), demonstra desconforto por meio do seu semblante (afinal, não nos esqueçamos de que ela tem um irmão gay), porém, não faz nada, cala-se. Ela se retém por causa do dinheiro. Assim, confirmamos a presença da ponderação nas nossas decisões costumeiras. Naquele momento, dinheiro falou mais alto que valores morais.

E num mundo que a cobra cada vez mais, onde Alicia encontra possibilidade de alívio? Em casa, com a famosa tacinha de vinho. Todavia, novamente, uma desconstrução foi estruturada. No lugar de ser a forte e boa mãe, ela se questiona com Grace e se permite sucumbir ao choro. Mesmo o achando forçado, sinto que as lágrimas têm explicação. Alicia está trilhando um caminho natural de processo, no sentido de prosseguir, de seguir a diante, que a faz mudar. E dessa vez, é por decisão dela, não de Peter ou das conjunturas da vida. Ela tomou as rédeas do que quer. E escolher, nunca é fácil. Afinal, o aprendizado do “cada escolha é uma renúncia” é árduo, porque, assim como no estudo da história, não dá pra aplicar o “e se”. O que foi, foi. E passou. Reminiscências são apenas perda de tempo.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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