The Good Wife – 6x14 – Mind's Eye

"Mind's eye" foi uma pausa para compreendermos as transformações de Alicia, enquanto ela se libertava


A telenovela brasileira tem dois recursos comuns (dentre tantos, há o escrever num diário) para mostrar o que um determinado personagem pensa. Uma maneira é menos plausível; a outra, mais arrastada. Na primeira, o personagem fala sozinho, em alto e bom som, debatendo as internalizações de informações, as reflexões e os medos, como se estivesse diante de um palco, no caso, nós, espectadores. Apesar de que, vira e mexe, estamos dialogando consigo mesmos, tal fato é incomum, pois articulamos nossos pensamentos, grande parte em nossa cabeça, ruminando e arquitetando solitariamente. No outro formato, surge um personagem-orelha, que serve apenas como ouvinte para deixar fluir o que seu parceiro em cena pensa e precisa ser atingido pelo público.

Dito isso, este episódio de The Good Wife tenta sedimentar um outro jeito incomum de comunicar a nós, o que atormenta, preocupa e motiva Alicia Florrick. Em momentos posteriores da série, tivemos esses processos internos apenas como passagens da trama, como foi no luto de Alicia após a morte de Will, e na última participação de Elsbeth Tascioni nessa temporada. Dessa vez, as perturbações, os brilhantismos e os motores internos de nossa protagonista foram todo o pano de fundo desse capítulo.

A princípio, foi estranho. Era como se a história estivesse congelada, sem avançar. Por mais que seja divertido ver Eli, Marissa e Johnny confabulando de maneira fícta, além de apontar como Alicia os conhece bem, não havia tantas novidades ou aspectos interessantes nesse arquitetar de estratégias profissionais e eleitorais. Até que, pisamos num terreno extremamente passional com o reaparecimento do fantasma de Will.

Um ano entre as duas situações deram um tom realista, pois não se esquece uma pessoa do dia para a noite. Constantemente a saudade e a dor brotam mesmo com o passar do tempo. Tal arma foi um trunfo. Nesse momento, o olho da mente da boa esposa passou a ficar bem mais interessante. O único entrave foi a escalação de um figurante estranho para ser Will. Foi bom re-escutar a voz de Josh Charles, mas não poderiam deixar o fantasma mental mais no escuro, como um vulto? Houve um descompasso, pois a voz era de Will, mas a carne-espectro não.

No desenrolar de todas as emoções e de todos os questionamentos, lindamente pontuados por uma trilha sonora riquíssima, temi que os King's, roteiristas desse episódio, estivessem “enchendo linguiça”. A verdade é que seria tão mais valioso e impactante se Alicia contasse pra alguém (no caso, Kalinda, por favor), numa bancada de bar, com uma bebidinha na mão, o luto e a intensidade do amor a Will. Teríamos um momento tão aberto e escancarado para uma protagonista cada vez mais multifacetada que se fecha quando é traída (Peter que o diga, além de Zack que vivencia um isolamento materno motivado pelo desapontamento); que tenta conciliar todos os entraves que surgem ao mesmo tempo ou podem vir a aparecer; que sabe ter muita compaixão tanto pelos problemas dos clientes quanto, até mesmo, para os oponentes como Louis Canning; e que não quer mais ser hipócrita, quer ser livre.

Tudo isso ficou, pra mim, mais nítido durante essa jornada mental, ou seja, não eram pontos novos na arte de entender e admirar Alicia. Por isso, me senti um pouco desestimulado por esse episódio. No entanto, não devemos nunca subestimar os criadores, pois, no final, entendemos do que se tratava aquilo tudo, o porquê desse périplo pessoal.

Como a mente humana, cheia de sinapses e ligações estranhas, começamos do profissional e chegamos até o pessoal. Alicia entendeu, ao mesmo tempo, o que precisa para ser uma boa state attorney e uma boa pessoa (ser verdadeira e honesta consigo própria, permitindo-se mentir quando for necessário para não ser uma mártir como costumava ser), uma vez que ela já não é, nem deve ser mais apenas uma boa esposa. E mais, ela se libertou, percebeu estar pronta e madura. Ao cruzar aquela sala para a entrevista, a protagonista rompeu mais um casulo na sua trajetória de transformação. A nós, do outro lado, só restou arrepiar diante de uma construção dramatúrgica arriscada, mas com consequências tremendamente marcantes.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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1 comentários:

  1. Voltando a ver The Good Wife, por isso a demora. Sinceramente, achei o episódio bem encheção de linguiça e, às vezes, bem chato. Teria sido melhor um "encosta sua cabecinha no meu ombro e chora" com o Owen ou a Veronica.

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