The Good Wife – 6x16 – Red Meat

Contrapondo à xará, a deusa grega romana que protege os animais, Diane mostrou todo o poder de caça abatendo o marido, um cliente e o veado, claro.

Dentre costumes e princípios, acredito que os últimos sejam mais difíceis de transpor, até porque a carga principiológica foi feita pra permitir concessões, ampliações e renúncias em cada caso concreto, conforme a ponderação apregoa. Já os costumes sedimentam-se em contornos mais arraigados, sua aplicação depende de aceitação, quase não permitindo maleabilidades. Ou ocorre, ou não. Ou se faz, ou não. Não há meio termo.

“Red Meat”, sutilmente, tratou dos tracejados sociais e pessoais ao nosso redor que nos paralisam ou nos forçam a mudar, a agir. Nas entrelinhas, cada história sinalizou como os costumes ainda moldam a trajetória de cada personagem, mesmo após seis anos de trama. Diante dessa gama costumeira de pensamentos, atitudes e percepções, as reações surpreendem tanto pela previsibilidade quanto pela contestação.

Sem tanta evidência, saint Alicia sempre teve algumas falhas. Brilhante advogada, mãe dedicada, competente pessoa resumem-na muito bem. Por outro lado, no quesito amoroso, ela peca nas duas vertentes, a lícita e a ilícita. Apesar de nunca simpatizar com Peter, já incomoda quando a protagonista o ataca, ainda mais quando não sabemos realmente se ela teria ou não sucumbido à tentação. Afinal, o que houve com Johnny? Apenas um beijo? Teve sexo? Como eles pararam? Eles estavam realmente bem conforme a primeira frase do episódio?

Se, com Peter, Alicia não perde o costume de censurá-lo, julgá-lo e culpá-lo, praticamente numa posição ativa; com os amantes, reina a passividade. No relacionamento de fachada, o casal, há tempos, entrou numa dinâmica costumeira de “o governador desaponta a esposa, esta cobra e briga com ele, este não concorda, mas mesmo assim, do seu jeito, age favorecendo-a”. Mais uma vez, o círculo vicioso ficou evidente.

Já com os casos amorosos furtivos, Alicia se mantém à mercê, totalmente estática. Johnny e Finn tiveram abertura, porém nenhum deles partiu para o ataque, embora o desejo seja latente. Ambos recuaram. O primeiro se manteve ao costume de se manter em movimento. O segundo, assim como Will tentou algumas vezes, partiu em busca de uma parceira menos complicada. Essas duas atitudes são legítimas, porque o impedimento advém da figura da boa esposa que é casada no papel, rodeada de escândalos políticos e pessoais, e futura state attorney.

Sobre isso, fiz coro com Alicia pela derrota, decepcionado apenas com vários minutos anteriores focados numa corrida eleitoral pré-definida como fracassada. Acostumado a vê-la num escritório, já aceitava Prady como campeão. Só que estamos lidando com The Good Wife, cujo modo habitual envolve nos surpreender e mudar a todo instante. Assim, em seis meses, nossa protagonista deve se desligar da prática privada, deixando indefinidos vários papéis na série. Que tortura!

Com Diane, a dinâmica de costumes exemplificou outra vertente, abordando como as brechas para a mudança surgem, até mesmo de maneira inevitável. Confesso que toda a situação de pequenas férias, com direito à caçada e cercada por republicanos (igualmente como os inofensivos animais estavam), tendeu a ser mais deliciosa de assistir que o dia de eleição, repleto de embates de videogame. Nessa história, o texto estava afiadíssimo tanto nas reflexões quanto na comédia (são tantas boas frases como a da bomba a fim de garantir vitórias democratas até 2030, além da cara da advogada ao saber da gafe em relação a call girl). É claro que Diane não ia perder a oportunidade de angariar um cliente, afinal, é isso que ela caça, enquanto Kurt mata animais.

O simples fato de ela ter aceitado o convite do marido, engolido a decepção de, por ser mulher, ter de ir para o spa, e, no fim, ter comido o veado que abatera horas antes, mostram que os costumes (ser democrata, lutar contra o sexismo, e buscar carnes de procedência correta) de Diane permanecerão. Contudo, quando a situação pedir, o sentimento demandar e o desejo gritar, ela vai deixar os preceitos de longa data de lado. Não nos esqueçamos da economia ruim, um cliente rico fala mais alto que qualquer demagogia.

Já a dinâmica Kalinda e Bishop retratou uma quebra de tradição para os dois personagens e nós também. Aparentemente ele representa o poderoso bad guy que quer se beneficiar da eleição de Alicia para seus negócios escusos. Na verdade, não é bem assim, devemos ter cuidado com as generalizações. O rei do tráfico deseja se aposentar, em prol da vida feliz e tranquila do filho, e precisa apenas de proteção contra futuros processos. A investigadora, por sua vez, não percebeu que a repetida perseguição mirava ela própria, mais uma ameaça para nossa poderosa personagem.

Falando em poderio, há um ano, tivemos o episódio mais truculento e impactante da série, “Dramatics Your Honor”. Desde então, nos acostumamos a enxergá-lo como único e intransponível nas suas sequelas. Contudo, momentos como o de agora, carregados de possibilidades, nos mostram que as rupturas em The Good Wife são os verdadeiros elementos costumeiros, independente de serem perceptíveis ou escancaradas. Cabe a nós, portanto, apreciar esse prato posto a nossa frente, depois de muita reflexão, assim como Diane o fez.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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