The Good Wife – 6x18 – Loser Edit

A aparência e o entorno se sobrepuseram à realidade e ao interno
Algum elemento de unicidade anda perdido em The Good Wife. Pode ser, pela primeira vez, o experimento de um sentimento de fim iminente que permeia algumas tramas, como a certeira saída de Archie Panjabi (senti que a corda tem se apertado cada vez mais no pescoço da nossa amada investigadora, independente do que se faça pra mudar isso). Talvez seja pela falta de posicionamento a respeito da renovação, que atores continuarão. Também computo esse novo rumo de Alicia na lista de indefinições. Tais indecisões de rumo parecem ter afetado a estrutura da série, fazendo com que as histórias se arrastem, fiquem sem vigor.

Nada está tão claro, tudo aparece estar num limbo, sujeito ainda às interferências externas e às montagens dos próprios criadores. De novo, ocorre metalinguagem entre criação e criatura. A história, a meu ver, está muito a mercê do entorno, não se mantém fiel à si própria. É esse afastamento que tem sido causa para o brilhantismo: a série sempre fez o que acreditava correto e excepcional para o desenrolar dos personagens, sem se preocupar com audiência, com horário, com o pertencimento a canal aberto ou fechado.

Parte da característica ímpar de The Good Wife tem envolvido a manutenção de uma unicidade bem coesa, isto é, a condução sempre priorizou uma maneira própria de se desenvolver por meio de suspensões de informações, lapsos, silêncios, por exemplo. De uns tempos pra cá, não só o teor material recebia essas inovações. A parte técnica também, com os flashbacks nas cabeças de Will e Alicia, explicando e empurrando o presente. E nesse episódio, ora estávamos no futuro, com a detestável Petra editando, ora voltávamos aos momentos de gravações, no passado. Essa digressão esteve bem dosada.

Contudo, a sensação rondante é que não há prumo bem definido, tudo está espalhado, desorganizado, principalmente para a protagonista, que há muito tempo, já não é mais uma boa esposa. É uma advogada fantástica, mãe dedicada. Porém, nos deveres maritais, estes são mais convenções do que afeto. E quando chega a hora de se implodir, de vez, essa questão, temos um retrocesso. Eli é a cabeça por trás disso, ao guiá-la a passar por cima das próprias convicções.

Alicia não é santa, ela já está ciente disso, quer até refutar tal ponto, dizendo que “sim”, teve um caso picante com o chefe. No entanto, o externo ainda tem de vê-la como a correta esposa, por causa do título da série, atrevo-me a dizer. Logo, tanto a jornalista no final, tentando tudo pra incriminar Alicia, quanto a equipe da futura state attorney resolveram maquiar as informações para tapear as percepções alheias. Com isso, geraram nova aproximação entre o governador e a futura promotora, sendo que tudo foi culminado para que o relacionamento funcionasse de fachada, não de verdade. Não sei mais o que pensar sobre esse casal.

A fim de deixar a análise mais complexa, defendo sim que a estrutura própria e interna da série não deveria receber interferências externas de maneira incisiva. Deve apenas permitir abertura quando lhe convir. Afinal, é preciso reconhecer que a história está inserida num entorno, devendo haver um enlace com ele.

Os casos jurídicos debatidos, semana a semana, são lindos de se ver por esse motivo. Tratam de assuntos pertinentes e atuais, ao mesmo tempo em que acrescentam camadas às histórias dos personagens principais. Nesse episódio, a discussão do casamento gay fez eco ao debate a respeito de igualdade, valores, intransigências e respeito, incluindo a referência aos produtos televisivos que abordam isso (assim como a arma de “How To Get Away With Murder” como presente pra Alicia no episódio anterior, vocês perceberam que havia um personagem regular sem barba e quase sem fala de “Looking”, além de o ator que representou o sobrinho de R.D., ter feito participação na season finale atual dessa mesma série?).

Por fim, creio que o discurso de RD, no final, dá uma resposta às avessas para todo esse embaralhamento de interior e exterior. Além de nos fazer arrepiar, porque, por um momento, até é possível corroborar o ponto de vista mais decisivo daqueles que se atém, sempre, ao que pensam; o que fala mais alto, no entanto, é o silêncio de Diane. Sua inércia em rebater torna-se um tapa de luva. A sociedade muda (ou deveria), os costumes se modificam (apesar de muito arraigados), as situações fáticas se transformam (mesmo contra nossas vontades). Não podemos bater o pé, temos de confluir com as metamorfoses. A resposta pra a falta de unicidade da série talvez perpasse ao difícil atingimento de uma adequação perante essas alterações tão inerentes, pois já são 6 anos no ar.

Menção honrosa: The Good Wife ganhou, nessa semana, uma indicação de prestígio. Ela foi indicada ao BAFTA Television Awards, prêmio de renome inglês, na categoria de melhor série internacional. No entanto, compete com nomes de peso, House of Cards, Orange is the New Black e True Detective. A premiação ocorre dia 10 de maio.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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