The Good Wife – 6x20 – The Deconstruction

"Goodbye!"

A princípio, era pra ser mais uma etapa de desconstrução de Alicia. No entanto, parte foi se moldando como um desmontar derradeiro de uma personagem totalmente diferente dentro da dramaturgia norte-americana por carregar características tão singulares e marcantes: única, poderosa, intrigante, imponente, sexy, diferente. Assim como surgiu sem explicações, envolta em mistério, Kalinda bateu a porta e saiu de cena sem se preocupar em elucidar, apenas em agir, ajudar, conforme seu constante padrão de conduta.

Assim, a trama desse episódio pode ser dividida em duas intenções. A primeira, a imediata, envolveu a constatação de que subiste uma maldição ao nome Florrick. Mais uma vez, o casal, de mãos dadas, teve de enfrentar o público e o julgamento da sociedade, numa coletiva de imprensa. Mais um escândalo, mais um baque, mais uma reviravolta só intensificam o cansaço de Alicia, a falta de prumo. Se no piloto, ela esbofeteia o marido; se nos anúncios das campanhas de Peter, ela era uma figura de apoio importante a ele; dessa vez, vivenciamos uma Alicia estática, parada no corredor, sem qualquer certeza de que rumos tomar. Ela não é santa, é gente como a gente. Também breca.

Depois de um golpe tão tremendo, nada é mais natural à protagonista que duvidar. Por isso, em sua nova fase profissional e pessoal, qualquer indício de suspeição passa a fazê-la questionar o que está por trás e quais prejuízos podem brotar. Todo o enredo de traição, falsidade e emboscada entre ela e os advogados da firma escancararam como a falta de claridade e honestidade pode comprometer os negócios. Afinal, os clientes estão ficando de saco cheio diante de tanta estabilidade, menos o devotado Sweeney, que acompanhará sempre a recatada boa esposa.

Como nem tudo pode ser tão catastrófico, os apoios de Peter, Cary e Kalinda (este ultimo, indiretamente, por telefone, sem ser por meio do esperado olho a olho) ganharam proporções gigantescas. O marido fez tudo o que se podia, desde estar presente a propor soluções. Deu, mais uma vez, força pra que ela abrisse a “Florrick & Associates” (estou me dando a liberdade de propor um nome), ou até mesmo escrevesse um livro sobre sua história e seus posicionamentos éticos (já pode preordenar uma cópia online?). O mais valioso foi a injeção de ânimo, ao afirmar que ela pode se permitir ficar cansada, pois no fundo, irá se recompor.

Cary pela primeira vez mostrou com unhas e dentes o quanto preza e respeita a parceira. Deu orgulho. Ele a defendeu da maneira mais leal que se podia, duvidando das intenções de vilania repetida, ao roubar clientes. Já Kalinda... ela foi a Kalinda da maneira como sempre conhecemos, esperamos. Do jeito como sempre sentiremos saudades!

Em tempos de mortes impactantes e violentas, como decorreu com Will, a despedida estruturou-se da forma mais condizente com o que vivenciamos em seis anos. Essa segunda intenção do episódio ocorreu de maneira velada, mediata, aos poucos. Só quando ela adentra na casa da amiga, fica bem nítido de que a desconstrução do título não estava voltada para Alicia, mas sim, para nós.

A beleza dessa saída calcou-se nesse desenrolar inesperado, já que faltam dois episódios para o final da temporada. Após o baque, ficou latente e pertinente que estávamos vendo as pontas sendo fechadas, as insinuações sendo concretizadas. Um dia, Kalinda iria sumir da mesma maneira de incógnita que apareceu. Ela ia deixar tudo pra trás, bem harmônico com o caráter dela.

A investigadora sempre foi justa, buscava punir quem merece. Ela não aceitaria que Cary ou Diane pagasse por um movimento falho dela. O drama do pendrive foi intenso, porque não sabemos até que ponto foi um erro, ou se foi premeditado. Ficamos, mais uma vez, na obscuridade. Só que não importa, a investigadora foi a peça principal e brilhante na solução desse caso Bishop.

Depois, Kalinda pôde ter com Cary uma finalização singela. O que era pra ser um momento de alívio, vira a constatação de que houve armação por parte dela. Para o advogado, o tom de voz entregou. Pra mim, foi o recolocar de um dos seus coletes tão emblemáticos. Ali, o destino traçou-se mesmo. O beijo entre eles foi simples, mas significativo. Apontou como ele criou, forçadamente e insistidamente, um lugar afetuoso num coração tão arredio.

Com Diane, a despedida ganhou ares mais cortantes, embora tenha sido truncada. Aquela ligação, na verdade, pertencia a Will. Ambos tinham um companheirismo velado, um protegia as costas do outro. Com a morte do advogado, Diane entrou no polo vacante e teve uma conversa filosófica, porém, tipicamente a cara da investigadora. Kalinda sempre dizia pouco e conciso, mas abarcando tudo. Quantas vezes ela não pediu que Alicia e Will conversassem. A vida é mesmo muito curta pra se ficar triste uns com os outros.

Contudo, o mais bacana foi a metalinguagem do ato final perante nossos olhos. Já que a desconstrução era pra nós, Kalinda mira diretamente pra câmera e se despede. Daí em diante, há um corte preto, e tudo fica menos brilhoso. Não tem graça a sentença mais branda conseguida por Diane, ou a reconciliação entre Alicia e a firma, nem o choro pesaroso ao final. 

The Good Wife se supera de novo, surpreende. Entre saber o que Will queria dizer antes do tiroteio e o bilhete deixado, prefiro esse último, pois ficamos privados, há anos, de uma amizade tão imprescindível. Pena que nenhuma das duas teve tempo pra sobrepor orgulho (de Alicia) e ressentimento (de Kalinda por ter prejudicado a felicidade alheia). Novamente, muito acaba ficando não dito por culpa de nós mesmos.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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