Season Review: Narcos, 1ª Temporada

Os Pilares de Narcos.

“Narcos,” a mais recente produção da Netflix, contou a história da mítica figura colombiana em sua ascensão: de ladrão de carros a sétimo homem mais rico do mundo, de Robin Hood a Chefe do Cartel de Medellín, aquele que foi um gênio do crime e amou profundamente a Pátria que o pariu. Ambientada na Colômbia da década de 80 – sendo fiel no idioma utilizado e fazendo-me aplaudir de pé pela iniciativa -, a série retratou um país que amou Pablo e odiou Escobar, que teve seu verde pintado de branco e, ao mesmo tempo, tingido de vermelho. Contando com 10 episódios e mesclando realidade e ficção – mesmo avisando antes de cada capítulo que todos os fatos eram meramente ilustrativos -, “Narcos” prende do início ao fim, seja pelas personagens altamente convincentes seja pela maneira de contar uma história super bem amarrada e produzida; fazendo-me ansiar por uma 2ª temporada e convidando vocês a comprarem uma passagem para Colômbia (que não seja no voo 203 da Avianca!) numa viagem pela 1ª temporada da série.

Padilha:

 “¿Que quiere, Pablo Escobar?”

José Padilha (produtor-executivo da série), em entrevista à DW Brasil, falou do Realismo Mágico da literatura colombiana – referenciado, principalmente, na figura de Gabriel Garcia Márquez – sobre a inserção do irreal na realidade e, por causa da dimensão gigantesca dos feitos de Pablo Escobar, ele optou por mesclar fatos e fotos documentais entre as cenas retratadas na série, como um lembrete de que aquilo merece ser visto não apenas como entretenimento, mas a fim de explicar um contexto histórico que, inevitavelmente, permeia ainda hoje seja nas mãos das FARC ou dos grandes traficantes em carros de luxo ou no cume de um morro. Além de produzir a série, José Padilha dirigiu os dois primeiros episódios e os detalhes do piloto, naquela referência do rato de laboratório ganhando as ruas de Miami, foram o algo a mais que eu procurava numa série nova!

Prólogo:

"O problema da droga é que ela não é boa para os negócios."

Diferente do que imaginei, a história apresentou um ‘Don Pablo’ influente e importante contrabandista desde o começo, não iniciando pela origem humilde em Antioquia. Cucaracha – a versão inicial de Walter White no que diz respeito à fabricação de drogas – deixou o Chile ditador de Pinochet (e mais uma aula de história logo nos primeiros minutos da série) e foi encontrar em Pablo um parceiro para expandir o contrabando de cocaína. Eis que a versão Heisenberg é ativada e a década de 80 foi palco para a imensa notoriedade do que viria a ser o grande Cartel de Medellín – formado por Pablo e seu fiel escudeiro Gustavo Gaviria, Guaca - El Mexicano, os Irmãos Ochoa e, posteriormente, Carlos Lehder.

A narração em off com tom de onisciência, representada pelo agente Steve Murphy do DEA e numa alusão maravilhosa ao que tem dado super certo nas 3 temporadas de House of Cards (outra produção original Netflix), os registros tensos da câmera, sempre se aproximando bastante dos acontecimentos e rendendo cenas maravilhosas como a perseguição dos agentes do DEA a dois comandados ‘Del Patrón,’ e os traços didáticos no que diz respeito à forma de contar a história (vide as imagens documentais piscando entre os acontecimentos de maior expressão), dão um olhar único no que tange ao fazer diferente e motivar o telespectador a conhecer o desenrolar da trama até o final.


“- Veja Pablo convertido em santo.

Pablo Emilio Escobar Gaviria amou o país e o poder de forma intensa. De narcotraficante a terrorista sanguinário, de zeloso pai de família a assassino impiedoso. Muito já foi documentado sobre a história deste colombiano, mas a atuação de Wagner Moura precisa ser ovacionada. Não falo apenas dos trejeitos de empurrar a barriga protuberante e arrumar a camisa dentro da calça jeans de forma peculiar, tampouco a face cerrada, ornando uma expressão ora dura ora tenra; Wagner foi além das aulas de espanhol para nos entregar um personagem que convença... ele foi autêntico mesmo interpretando uma figura pública e tão encenada, até então. A excelência de sempre, a maestria que lhe é peculiar, o brasileiro esteve incrível do início ao fim, exalando fúria ou me fazendo morrer de rir por conta da sua impulsividade e humor negro; Moura é Pablo e Escobar foi Wagner e esta relação fascinante nunca será dissociada em minha mente.

Muito foi comparado com uma versão sul-americana de Walter White (Breaking Bad), mas penso em Escobar como o Tony Soprano da América Latina. Altamente carismático e ufanista, ele distribuiu dinheiro do tráfico para o povo, construiu escolas, hospitais, investiu na economia Colombiana e pensou tornar-se presidente; completamente ameaçador e cheio de si, explodiu avião, ordenou a execução de milhares de pessoas, manteve desde policiais a juízes em sua folha de pagamento. Amou a família, mas traiu a esposa com a repórter Valéria (alusão a Virginia Vallejo) – a mesma que o colocou em evidência, apelidando-o de Robin Hood Paisa. Pablo foi um homem contraditório, vide a expressão “não sou um homem rico, sou um homem pobre com dinheiro;” e sua ruína começou a ser retratada na segunda metade da temporada, quando o cerco foi fechado não apenas pelo DEA ou o Comandante Carrillo, mas com a força do exército em frente à prisão que ele fez pra si e chamou de ‘La Catedral’ – uma referência ao poder soberano, por vezes Divino, que ele acreditava possuir.

Plata o Plomo:

"Melhor um túmulo em Colômbia que uma cela nos EUA."

O piloto trouxe esta emblemática expressão que deu cunho para os episódios seguintes, uma vez que todas as coisas eram, por ele, conquistadas seja comprando pessoas ou matando-as sem piedade. Desde a criação do Cartel de Medellín e toda a expansão da cocaína para Miami, principalmente, os inimigos vestiam farda ou usavam terno e gravata e, um a um, rendiam-se à enorme soberania de Pablo ao fechar os olhos pra os seus mandos e desmandos. “Como posso lutar, se meus soldados já estão lutando por Escobar?” indagou Carrillo aos agentes Peña  e Murphy, quando nem todos os recursos concedidos pela Embaixadora dos EUA eram suficientes, já que ‘El Doctor’ tinha olhos e ouvidos em todas as partes e eu ainda fico chocada nas cenas de militarização de menores ou na criança que rendeu Javier para que o parceiro de Veneno fugisse. Não bastasse o encalço dos presidenciáveis – e as mortes destes antes de assumirem o cargo, todas encomendadas pelo presidente do Cartel, aliás – o Cartel de Cali, liderado por Pacho, resolveu disputar o território de Los Angeles e instaurou outra guerra, aumentando a paranoia e desejo de poder de Pablo que, por seguir a teoria do caos, acreditava que o tumulto precisava ser enorme para que as pessoas clamassem por paz; à maneira dele: “Se temos de morrer, morramos todos.”

O verde dos dólares, sempre bastante a ponto de precisar ser enterrado por falta de local para guardar, não conseguiu cobrir os rastros de sangue deixados pelos maus-tratos aos populares, a carnificina cotidiana, a aliança temporária com o M-19 a fim de atacar a Suprema Corte, incendiar processos, matar juízes; os sequestros aos filhos das pessoas mais influentes da Colômbia, culminando no cárcere seguido de morte da repórter Diana Turbay e, como uma ironia do destino, o que poderia ser a barrocada da influência de Pablo, tornou-se vitória, ao passo que o Presidente aceitou, enfim, acabar com a extradição, acusá-lo por penas leves e deixá-lo viver numa prisão construída por ele mesmo, com distância policial num raio de 3 km. É aquela máxima de que se o teu país virou um inferno, você senta à mesa com o diabo.

Polícia, Política:

“Você não entende, você é gringo, esses não são teus homens, você não tem família aqui para perder.”

Os olhos das autoridades estiveram fechados por muito tempo acerca dos negócios de Escobar e isto sempre foi justificável, uma vez que ele foi herói de muitos ao melhorar significativamente a qualidade de vida da população, distribuir dinheiro tais quais os aviõezinhos do Silvio Santos; ou qualquer outro meio de comprar suporte nos momentos de fuga e reforço no que tange ter informantes em todas as partes. Mas a presença norte-americana começou a exercer forte influência na captura dele, ocasionando fuga para o Panamá (e estreitando a relação de Manoel Noriega com ‘El Señor,’ ao usar o país como rota da droga), anistia negada, ameaça de extradição, perseguição e morte aos seus comparsas e estremecimento da relação com Guaca e os Ochoa, por exemplo.

Apesar de o DEA afirmar ter provas suficientes para prendê-lo por 100 vidas, os envolvimentos com a Nicarágua Sandinista e o ETA – movimento separatista do País Basco – tornavam-se mais evidentes. Cada vez que as autoridades incorruptíveis chegavam perto do rastro de Pablo, ele avançava duas casas e transformava-se num terrorista de alto escalão neste jogo de gato e rato iniciado pelos EUA – que nunca pensaram em combater o produto, apenas a oferta. O maior questionamento que faço, depois de acompanhar essa perseguição incessante, é que nada mudou nos dias de hoje. A visão da droga como problema militar, não uma questão social e de saúde pública, não cria uma rede de ajuda a viciados nem combate o crime, apenas pune o criminoso. Antes de Escobar, o tráfico já existia na Colômbia. Nele, o monopólio de 80% do narcotráfico ao redor do mundo estava concentrado, mas isto implica dizer que não viria alguém depois dele? Isto implica aceitar ajuda de outro Cartel apenas para capturar o ‘grande inimigo’ do DEA na época? Os norte-americanos encararam como um jogo a vida de um país inteiro.

Paisa:

“Os maus precisam ter sorte todas as vezes. Os bons, apenas uma vez.”

A definição de ‘Paisa’, expressão bastante utilizada na série, vem de ‘paisano’ ou ‘montanheiro’, uma pessoa natural de Antioquia (onde Escobar nasceu), Caldas, Risralda, Quindio e o Norte de Tolima e Valle. A relação de nacionalismo e identificação cultural como um único povo está enraizada à população destes locais, fato intimamente demonstrado pela relação de amor que ‘El Patrón’ tinha com sua terra, a região montanhosa onde construiu La Catedral, as memórias recorrentes da infância passada com o primo Gustavo e o respeito que tanto seus comandados quanto os populares prestavam a ele.

Pó e Poder:

"- Vas a reunirse con políticos, no mafiosos.
¿Y no son lo mismo, patrón?"

Quem poderia supor que um narcotraficante, que fez seu nome e fortuna exportando um dos pós brancos mais consumidos no mundo, disputaria eleição como suplente do Parlamentar Jairo Ortega Ramírez e o convidaria, após ganhar a eleição, a retirar-se do cargo? Gustavo assistiu a obsessão do primo e retirou-se do negócio quando percebeu que Escobar, teimoso como sempre, não iria desistir de tentar eleger-se Presidente. O desejo de ser reconhecido como autoridade máxima o levou a um constrangimento sem fim no Parlamento, instaurando uma guerra civil onde "...parece que sempre os inocentes é quem se machucam." E são. E de ambos os lados, ou o carro bomba próximo ao Hotel Mônaco – local onde os Escobar pernoitaram -, não teria explodido nem deixado sua filha surda. Sem contar a enorme lista de corpos funcionando como efeito colateral da sede pelo poder de um Patrão que tornou-se vilão. "E quando você chega muito perto do sol, seus sonhos podem derreter."

Parejas:


Escobar é casado com Tata, tem dois filhos e, juntos, parecem aquela família de comercial de margarina. Ele, tal qual o sol, tem em sua órbita não apenas um exército disposto a morrer em seu nome, mas uma esposa devotada, uma mãe companheira, uma amante que o evidencia na mídia e um primo que faz as vezes de sócio, braço direito e voz da consciência. A relação mais bonita, sem dúvidas, é a de Pablo e Gustavo – e aqui está mais uma atuação brilhante! O que falar do episódio 8, em que o Gaviria de boina é morto e a dor nos olhos de Wagner é latente e mistura-se com um ódio profundo dos responsáveis por esta morte? E a transmissão, via rádio, do funeral a que ele não pôde ir, no mesmo momento em que o Presidente votava contra a extradição? Este é um dos meus momentos preferidos da série, toda a sequência da morte de Gustavo e as consequências ocasionadas, principalmente no campo emocional do nosso protagonista, me fez vibrar! "Mentiras são necessárias quando a verdade é muito difícil de acreditar," assim foram justificadas as ações que antecederam os dois capítulos finais, com os agentes do DEA olhando, ao longe, a 'rendição' do seu principal algoz, agora intocado (e entocado!).

"Éramos como o triângulo das bermudas, se alguém chegava muito perto de nós, desaparecia."

Por falar nos agentes, Peña e Murphy também demonstraram uma química incrível! Ainda que, inicialmente, eles fossem mostrados como o avesso do outro, percebemos que não existe mocinho e vilão numa boa história – seja verídica ou não. Enquanto um dominava ambos os idiomas, tinha informantes em todas as partes da cidade e nenhum receio de burlar as regras para conseguir o objetivo final; outro descobria como viver num país diferente, lidar com o casamento (e a morte do gato cujo nem gostava, rs) e assumir uma postura que o conferia a dureza específica para realizar o trabalho mais difícil de sua carreira até ali: capturar Pablo Escobar. Gosto que Steve não ficou pintado como ‘incorruptível’, ao passo que sua essência fora corrompida pela situação de guerra do país, vide a cena do táxi, e um lembrete de que ninguém sobrevive imune a situações de extremo terror – ainda que você esteja treinado pra isso -; nem Javier ganhou a insígnia de mau caráter (ainda que o contato com Navegante nos leva a crer que ele arquitetou o sequestro do parceiro e o vazamento das fotos das mortes na Dispensaria), uma vez que ele tentou, de todas as formas, proteger seus informantes de um fim trágico – e a cena da Helena sendo resgatada por ele ainda me corta o coração.

Murphy e Connie também formaram uma parceria boa, gosto da funcionalidade do casal, do fato de terem adotado a filha de Jaime e Natalie, agora vossa Olívia, longe de todo o mundo do crime (será mesmo?); mas ainda preciso ver como eles lidarão com o fato de não voltarem ao país de origem como ela supunha que fariam. O Cartel de Medellín, diferente do que uma sociedade deve prezar, deixou a desejar no que dizia respeito a um Jogo da Vida e tornou-se um tabuleiro de Monopoly, onde satisfeito estaria quem mantivesse seu tesouro, seus segredos e ganhasse vantagem ferrando o mais próximo. O que havia começado como uma associação de negócios e divisão de lucros acabou transformando-se em ‘todos contra Pablo’.

Pelea:

“O propósito da guerra é a paz.”

Todas as trocas de tiros e as mortes foram muito bem feitas, cheias de realismo, tal qual a perseguição policial aérea que ceifou a vida de Guaca e seu filho insuportável. Lehder preso, El Mexicano, Gustavo e Veneno mortos, e Pablo vivendo confortavelmente em La Catedral, os negócios ficaram nas mãos de Moncada e Galeano... mas por pouco tempo. Adicione a boca grande da esposa de um e o dinheiro, há muito enterrado, encontrado na propriedade de ambos para que, aquele que usava a violência pra fazer os outros curvarem-se a ele, agir impulsivamente e matar um dos antigos sócios com o taco de sinuca, queimando os corpos e disfarçando o cheiro com churrasco. GE-NI-AL!!

Após serem usados por Pacho como marionetes, os irmãos Ochoa fizeram um acordo com as autoridades em troca da localização de Gustavo e foram indiciados apenas por importação ilegal de touros da Espanha (e eu posso dizer que foi a única coisa relevante que ambos fizeram a série inteira porque se aquele com cara de bocó escovasse o cavalo mais uma vez, eu mesma atiraria). O branco da droga tornou-se o vermelho do sangue de alguns integrantes do Cartel de Cali, como um lembrete de Pablo de que ele sabia da grande orquestra de Pacho e, logo, estaria removendo-o do papel de maestro.

“Antes Escobar era dono de toda Colômbia, agora apenas da Catedral” mas, mesmo lá de dentro, ele continuou comandando seu império, até que as fotos do que acontecia dentro da ‘cadeia’ – depois de rejeitadas pelo Presidente – chegaram à imprensa local, fruto de um plano maravilhoso de Peña e Murphy que também descobriram a comunicação de Escobar com o mundo exterior através de pombos correio (altamente não rastreáveis e uma ideia incrível que me fez vibrar com a sagacidade) e deram início à ‘pelea final’ ou o que gosto de chamar de ‘prólogo da segunda temporada.’

Posteridade:

“¿Qué sientes por cagarse en su propio imperio?”

Por causa do vazamento das fotos, agentes do DEA foram suspensos pela Embaixadora dos EUA, Carrillo foi transferido para Espanha e o Grupo de Busca foi desfeito. O exército foi chamado para reformar La Catedral, o Vice-Ministro Eduardo entrou no cárcere privado a fim de negociar a transferência de Pablo para Bogotá, mas todos os movimentos externos foram considerados uma declaração de guerra. No fogo cruzado, enquanto passavam cenas da família Escobar amontoando dinheiro em malas, Pablo fugiu e ganhou a mata. Peña e Navegante encontraram-se e Murphy prometeu, na volta pra casa, que nada mais impediria o DEA de capturar o maior narcotraficante da América Latina.

“Narcos” ainda não confirmou a 2ª temporada, mas creio que seja questão de tempo. Paramos em 1992 e, se você não conhece a história por trás da série, não serei eu quem vai entregar o que ainda tem pra ser contado de forma tão sagaz e inteligente; pra mim, excelente. Um pouco de Goodfellas, Scarface, Sopranos e Breaking Bad. Um anti-heroi indefensável, mas completamente carismático. Esta é “Narcos,” e o prazer é todo seu.

Share on Google Plus

About Vanessa Reis

Hey 23, call me! (@neereis)
    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 comentários:

Postar um comentário