Season Review: UnREAL, 1ª Temporada


"Leave your conscience at the door on this one. Okay?" 

Um jovem rico, bonito, de família influente procura por uma esposa. Jovens solteiras, de corpos esbeltos, que sorriem o tempo inteiro, têm o cabelo impecável, maquiagem impermeável e sonham em encontrar o 'felizes para sempre', disputam um lugar no coração do pretendente. Poderia ser um conto Disney, uma história dos tempos da vovó, mas é o roteiro de "Everlasting;" até conhecermos os bastidores. Com as câmeras desligadas, vemos como um reality show acontece, desde a criação de personagens com perfis totalmente estereotipados a coerção, manipulação e todas as formas de transformar a ficção em realidade, o cotidiano em teatro; vemos que o jovem quer mesmo é limpar sua reputação para conseguir o respeito do pai e consolidar seus negócios. Quinn (Constance Zimmer, House of Cards) é  o grande cabeça por trás de todo o espetáculo, a  mente genial que assina cada recorde de audiência e coordena os produtores responsáveis pelas personagens da série; a ventríloqua mor de todas as marionetes.
We are selling true love.
Confesso que fui pega de surpresa quando comecei a ver UnREAL, não imaginei que a série fosse me pegar de tal forma porque, no fim do dia, todos os 10 episódios foram vistos e eu fiquei com cara de bunda esperando mais. VICIANTE, SENHORES! Gosto muito de reality show (alguns!) e a premissa da série me conquistou dai, o que poderia esperar de uma trama que contasse os bastidores de um reality -"Everlasting" - baseado no famoso "The Bachelor" (a produtora executiva da série, Sarah Shapiro, trabalhou no programa, aliás)? Estamos mergulhados no universo dos reality shows, as pessoas tendem a ser obcecadas com alguns tipos saídos de alguns deles (Kardashian syndrome: guilty) e o timing pro assunto não poderia ser mais assertivo! Pra quem, como eu, que desacreditou da história: vale super a pena! Os plots são muito bons, os atores são fantásticos e as personagens são maravilhosas! É aquele tipo de série que envolve e garante uma maratona deliciosa.

Não estamos acostumados com personagens femininas que sejam manipuladoras (para sermos bem políticos no termo empregado) sem que a história dê motivos para tal, sem que haja um prólogo explicativo de como tudo se deu. São séries contando histórias de pessoas como Elizabeth Jennings (The Americans), Gemma Teller (Sons of Anarchy), Carrie Mathison (Homeland), Cersei Lannister (Game of Thrones), Mags Bennet (Justified), Judith Ryland (Dallas), Claire Underwood (House of Cards) mas ainda não vi alguém como Rachel (Shiri Appleby, Girls)  e é difícil encontrar uma palavra que a defina além de... Rachel. O olhar insano na season finale, com a make da Gaga e o sorriso do Coringa, é traço da mesma pessoa que não conseguia dormir sozinha depois de um trágico acidente no local de trabalho. Às mulheres nunca foi dado o crédito de serem o retrato do anti-heroísmo ou o epicentro do tornado que destrói tudo ao redor, e UnREAL foi genial no que diz respeito a isso, no que tange a contar a história de mulheres que manipulam e, por vezes, acreditam naquilo que 'vendem' todos os dias (ou Quinn achou mesmo que Chet [Craig Bierko, Leap Year] seria fiel depois de pedir o divórcio e assumir a relação dos dois?); mulheres que são o que são sem precisar de uma lista de desculpas por existirem ou uma infinidade de porquês para o serem. Mulheres que quebram, mas que não são expostas como coitadinhas nem precisam da pena de terceiros (ouviu, mama Rachel?); mulheres que choram inconsolavelmente, mas não são taxadas de fracas; mulheres que não são estereotipadas pela realidade... apenas pela ficção (e por querer).

E, por falar em estereótipo, as pretendentes do Adam (Freddie Stroma, Game of Thrones) foram analisadas antes mesmo de chegar à mansão cenário do reality, recebendo títulos que definiriam seus papéis 'no jogo' por conta de um traço na personalidade ou no senso comum absurdo e eu ainda reviro os olhos ao lembrar do Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman, SGU Stargate Universe) perguntando às duas negras da competição qual delas seria a barraqueira, a que mostraria mais pele nas tomadas externas, a extrovertida que vira piada pronta; "it's not my fault that America's racist." E o que dizer do comentário entre Shamiqua (Christie Lang, Once Upon a Time) e Anna (Johanna Braddy, Quantico) sobre serem duas pessoas super inteligentes transformadas em objetos, suscetíveis a brigar  por qualquer boato, apenas pela pressão do confinamento (e o fato de não terem nada o que fazer durante o tempo em que não estão gravando)? E o fato de Shia (Aline Elasmar, Southland) adulterar os remédios de Mary (Ashley Scott, Jericho) para que ela "brilhasse" e não fosse eliminada, culminando no suicídio da mesma (e deixando uma criança órfã)? Crítica, bom humor, drama, bulimia, bipolaridade, psicólogas mais loucas que suas próprias aspirantes a pacientes, sotaque britânico e uma passadinha num dos galhos da árvore genealógica da Realeza, aceitação, traição, crime, mentiras, intrigas, surtos psicóticos, romance - seja ele falso... ou não! - e muita, muita edição para que tudo encaixasse e parecesse perfeito aos nossos, as vossos, aos olhos do Big Boss.

UnREAL pinta uma crítica mordaz à nossa sociedade, mas vem emoldurada no humor das tiradas sacanas e no drama contado, seja ele sutil ou escancarado. A série da Lifetime não tem medo de mostrar o que e quem somos neste eterno jogo e ser e parecer e acerta em cheio - não obstante, uma segunda temporada já está prevista para 2016 - conquistando não apenas o público consumidor de reality show, mas também aquele que deseja conhecer como funcionam os bastidores dos programas que garantem não expor apenas imagens ilustrativas por transmitirem 'a vida ao vivo'.
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About Vanessa Reis

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