The Good Wife - 7x01 - Bond

Surgem novos bonds na vida de Alicia

A julgar pelo título, a estreia da sétima temporada de The Good Wife quis entrelaçar todos os personagens após as diversas implosões causadas, tais como as cisões, as junções e as formações de firmas, além do escândalo eleitoral da nossa protagonista. Apesar dessa construção, a sensação preponderante não foi a de um recomeço ou de uma solidificação de narrativa e de personagens. Rondou toda a história um ligeiro e forte empenho em “tapar buracos” devido às perdas.

Alicia, como de costume, precisa recomeçar. Para tanto, resolve ser uma advogada designada pela Ordem americana, pegando casos criminais, resolvidos à velocidade da luz, sem qualquer argumentação. O importante é manter a rapidez, não dá para ser Maria Antonieta, embora ela tente a princípio. Talvez a Alicia de antes fosse movida pelo desejo de contestar, lutar, agir. Ainda percebemos que ela se importa, contudo, rapidamente, se adequa à conjuntura, dando conta do recado, moldando-se ao redor. Essa crítica à maneira de manter a máquina judicial funcionar a todo custo para que os números falem bonito, não se preocupando com impactos pessoais e sociais, abrilhantou a história, porque mostra como a série se mantém antenada também com mazelas internas.

Mesmo mudando, a boa esposa ainda carrega os sentimentos valiosos que nos fazem ora admirá-la, ora odiá-la. Louis Canning foi literalmente o advogado do diabo, ao expor que ela é aquela que diz 'obrigada', no lugar de um palavrão, digamos. Na verdade, ele é o diabo como advogado, tentando-a, assim como seu precedente fez com Jesus. Claramente a parceria traria muitos lucros e dividendos para Alicia, basta olhar para o bizarro caso da semana pela luta de herdar um quadro famoso, quando o post-it cai, deixando indefinido para quem a peça iria. Nessa urdidura, a série consegue abraçar o humor de uma maneira ímpar. O problema é trabalhar “para” Canning, ao invés da sonhada liberdade que ela apregoa por aí, já que pela primeira vez, não deve dar satisfações a ninguém.

Não acredito muito nisso, Alicia é muito apegada à família, à imagem, à autoconsciência. Falar é mais fácil que fazer. No entanto, novamente, ela dá ares de que pode se reestruturar, ou preencher os buracos que as perdas lhe causaram. Num impulso, dá o aval para que Peter tente se tornar o vice dos democratas nas eleições de 2016. O que foi um ato de desprendimento, na verdade, pode trazer mais grilhões. A entrevista com Peter sinalizou bem o desconforto dela por meio de olhares às mãos dadas, ou melhor, agarradas pelo “mau esposo”. Ela é um bote para ele, garante estabilidade. Não dá para largar.

Quem pagou um preço alto foi Eli. Na busca pelo êxito, o competente estrategista se vê substituído. Sem pestanejar, taca na cara do antigo chefe alguns podres que nem nós sabíamos ao certo. The Good Wife adora esclarecer situações com atraso. Quer dizer então que Peter transou sim com Marilyn Garbanza, personagem de Melissa George? Só há fachada na vida desse homem.

Apreciei muito a participação de Margo Martindale, um anunciado (e correspondido) tapa buraco de peso. Na perda de atores emblemáticos, a série faz o que tem de melhor, enriquece ainda mais a cartela de atores convidados. Confesso que este é o primeiro trabalho que vejo dela. Os prêmios e as repercussões fazem jus ao impacto, à intensidade e às camadas que a senhora Martindale imprime. Por trás do semblante sério e simplório de uma mulher idosa, tem um vulcão no olhar e na cadência da fala. Que muitos explosões venham entre ela e o repaginado Eli. Ficou muito bom o visual novo.

Na firma de Diane e companhia (não sei como ela se chama), o velho volta a imperar. Cary, certamente pertencente ao novo, percebe tal atraso e tenta mudar. Não atinge a meta, obviamente, mas consegue uma aproximação homossexual que o constrange. Na falta dela, da nossa adorada investigadora bissexual, a cota da diversidade precisava de um novo estímulo. Sobre os dinossauros do direito, sinto que esse núcleo de David Lee e Howard apresentou-se perdido, apenas para preenchimento. A série trata da reeducação e redenção de Alicia Florick. Logo, torna-se necessário aproximar ou utilizar mais esse seleto grupo.  

Por fim, o tapa buraco mais evidente e surpreendente seja a personagem de Cush Jumbo, a advogada Lucca Quinn, que é exótica, inteligente e astuta como Kalinda. Se não bastasse isso, ela ainda salva nossa protagonista duas vezes e abusa da caridade da mesma, afinal, advogados indicados pela Ordem não se ajudam. No final do episódio, quando ela surge e se senta no bar com Alicia, deu vontade de odiar. O alívio surgiu quando ela pede uma cerveja e vai dançar. Embora eu acredite que ninguém é insubstituível, existem bonds que não permitem trocas.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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2 comentários:

  1. "No final do episódio, quando ela surge e se senta no bar com Alicia, deu vontade de odiar. O alívio surgiu quando ela pede uma cerveja e vai dançar. Embora eu acredite que ninguém é insubstituível, existem bonds que não permitem trocas." Esse final do texto me fez mais feliz que toda a sexta temporada kkkk

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    1. Pensando agora, depois de um tempo, essa cena foi mais impactante do que a última entre Alicia e Kalinda.

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