The Good Wife – 7x02 - Innocents

"Você está sendo usada?" "E quem não está?"

Como na semana passada, o título desse episódio é mais uma mensagem de maneira às avessas. A época da inocência acabou, a maturidade faz-se necessária. Os personagens não são inocentes mais, conseguem enxergar que por trás de qualquer ação e movimentação, existem (ou podem/devem existir) inúmeros sentidos e motivos. Nada é tão claro e puro quanto aparenta. Tudo passa a ser suspeito.

Sobre isso, temos Eli Gold, fazendo jus ao título de estrategista maior. Ele sabe encantar Alicia (no inglês, patronize seria o termo exato) e tem ciência de que precisa recuperar a visão de santa que ela sempre carregou. No maior estilo “me engana assim que eu gosto”, tanto Peter quanto a boa esposa sabem que ele está armando algo maior, porém, deixam estar como está. Eli é bom, competente e influente. Não é à-toa que a improvável busca de perdão com Frank Landau mostrou-se um movimento acertado, chegando a incomodar Ruth Eastman que, aos poucos, foi abrindo mais as asinhas. Esta só tem o ar de velhinha inocente, pois é capaz de tudo, inclusive infiltrar uma secretária para espionar o oponente. Foi interessante a virada de jogo entre eles. Eli conseguiu plantar a sementinha da eterna suspeição quando se atinge o poder.

Outra que não tem nada de boba é Lucca Quinn. Mais uma vez, ela explora Alicia, embora funcione muito bem como um trunfo, um coringa. A advogada passa, sem pestanejar, um caso pra frente. Quando percebe a mina de ouro entregue de bandeja, bate à porta e pede 50%. Alicia, que não deixa de ser santa internamente, cede. Mesmo sem escritório, parece que a protagonista mantém o pensamento coletivista, solidário e divididor.

Fazendo gancho, Cary é outro que, por ter saído recentemente da posição de subalterno, continua pensando nas injustiças do mundo corporativo. São válidas a preocupação e a indignação com a situação dos sócios ganhando mais, enquanto o trabalho pesado fica nos demais. Para tanto, resolve comprar guerra com Howard. Mesmo bonachão e inocente, ele tem condições de atrapalhar de um jeito sem noção e peculiar. Apesar do empenho de Cary em mudar, no fundo, ressoam as palavras de Diane ressaltando que Cary faz parte da linha dos dominadores agora e se beneficia tanto quanto qualquer um. Ele vai deixar mesmo a situação de lado?

O caso da semana também nos recheou com aparências inocentes, contudo, carregadas de torpor e manipulação. Quem mais poderia externar tal oposição do que Nancy Crozier? Como esse personagem rouba a cena e não nos cansa com suas pérolas e passagens! Adorei ela chegando e perguntando se conhecia Alicia, fora que no tribunal, ela também é uma potência transviada de carneirinho.

A respeito da situação em análise, a princípio, tratava-se de um ódio pela juventude roubada graças à exposição de fotos nus dos rebentos de uma mãe artista. Com esse pontapé, discutiram o direito de imagem e de propaganda, o feminismo, o erotismo/pornografia, a pedofilia, o conteúdo artístico, até chegar no cerne daquele lide: a carência. Havia muito não dito entre mãe e filho. A câmera fotográfica criou barreiras afetivas que, com um toque de mão, foram dissipadas. Às vezes, somos inocentes sem qualquer razão, queremos o mais simples, não ligamos pra dinheiro. Foi diferente de ver uma conclusão tão singela após tantos embates.

Vale menção à atuação de Grace. Como ela está mais madura, menos menininha, chegando a negociar salário. Não gostaria que ela sumisse, embora seja inevitável (mais uma vez, onde está Robyn?). Ela tem uma mente tão aguçada, embora seja a inocência. De cara, percebeu que Jason era o investigador certo, não importando o valor a ser pago. Já Alicia, provando o quanto foi influenciada pela presença de Kalinda, opta pela mulher investigadora que a desaponta com força total.

Embora o episódio tenha apregoado a não existência da inocência em algumas situações, ainda perdura um quesito dessa característica na condução das tramas. Inocentes não sabem de tudo, tem uma visão limitada, não geral dos casos. The Good Wife aposta, mais uma vez, nos indícios. Resta-nos aguardar. Afinal, qual será o preço do perdão de Frank? Qual é a votação na qual Alicia terá de dizer não? Será que é em relação a Peter como vice? Por que Jason escolhera Alicia, mesmo com a oferta mais tentadora de Diane? 

Ao fazermos essas perguntas, também percebemos que nós, espectadores, também mudamos, nossa época de inocência acabou (ou teve de acabar, ou nos obrigaram a isso), a maturidade televisiva com a série faz-se mais que necessária.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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