The Good Wife – 7x03 – Cooked

Quem quer uma lasanha de climão?

A receita foi simples. Fomos cozinhados em banho-maria com situações aparentemente inocentes. Quando o fogo esquentou, elas se transubstanciaram em jogadas de mestre, e o caldo entornou. São episódios assim que fazem The Good Wife ser um primor, uma verdadeira obra de arte a ser apreciada com muito gosto e requinte, porque geram muita reviravolta sem que estivéssemos esperando por tanto.

Da parte cômica, Veronica, Eli e Howard foram sensacionais por causa dos movimentos de virada de mesa. Assim que irrompia uma risada na mãe de Alicia a respeito do convite de Eli para participar do programa de culinária, brotava uma também em mim de maneira simétrica. Quebrando as expectativas, na hora do vamos ver, as duas discutiram mais a dinâmica familiar de ausência e sarcasmos, do que propriamente a famosa lasanha. Faltou Owen nessa caldeirão.

Com isso, Eli também pôde virar o jogo. A princípio acuado numa sala pequena, sem cadeira numa reunião, forçado a interpelar mais participação à mulher do governador, o sofrimento cômico vivido por ele deu lugar, no decorrer do episódio, ao reforço do seu poderio. Apreciei as palavras dele a Alicia, dizendo, de outra maneira, que a mão que dá é a que tira, isto é, era melhor ela aceitar uma coisa “inocente” de um programa de culinária agora, para ter crédito e poder recusar outras situações espinhosas depois. Destaque foi a premeditação dele, pois sabia que essa ideia não ia funcionar desde o início, mas mesmo assim, ele a propiciou e viu Ruth se queimar por não ter conhecimento prévio dos Florrick.

Howard também deixou os modos de bonachão inicial de lado para se tornar um administrador-conquistador forte, além de um bom galanteador. Por que não juntaram esse casal antes? O primeiro galanteio no elevador chegou a fazer Jackie mudar o tom de voz. Bem que poderia ter um casamento na série. Em retorno pela atenção e o carinho, ela consegue um fantástico cliente a ele, mudando os planos de processar a firma por discriminação de idade. Fico me perguntando o que Alicia estaria deixando de ganhar ao não considerar a sogra como uma aliada.

Assim, a situação de Howard, que era algo leve no episódio, trouxe tensão para as duas damas da série. Sinto falta da interação Diane e Alicia, e parece que aquela também sente, pois tentou cooptar uma nova estagiária para se tornar novamente uma mentora. Percebendo que as gerações não estão mais focadas integralmente como ela, que viveu para uma carreira sólida, Diane intercede  afim de repassar alguns casos a Alicia, desafogar a firma e manter a antiga associada como parceira, e não futura inimiga. Sentindo-se traída, Diane não se segura e vai tirar satisfações. Mais uma vez, as duas são pegas no fogo cruzado de informações desconexas.

Por fim, o caso da semana teve impactos em diversas esferas, o que fortaleceu a primazia do episódio. Por mais que preguem uma amizade-inimizade (freenemy, em inglês, que é a mistura de friend e enemy), uma confiança brota entre as duas advogadas da Ordem. Primeiro, Lucca aceita não pegar o acordo da Promotoria e até ajuda numa forma de burlar a lei para inocentar o cliente de Alicia. Foi tocante ver, no fim, a boa esposa entregando mais casos à outra, depois que o juiz entregara as pastas.

Falando nele, apesar de não ter sido pego dessa vez, ticou bem claro que ele é corrupto. Gostaria muito que ele fosse penalizado. Porém, para surpresa de todos, ele não dispensa o caso. Se o fizesse, sinalizaria que fora “comprado”. O fim foi sensacional, pois eu imaginaria qualquer um ali na sala como informante do esquema para pegá-lo, menos Eli. Este, por sua vez, exemplificou o conselho à Alicia de dar algo e querer outra coisa em troca. No caso, ele intenta pegar Frank. Mesmo que a protagonista não saiba, acho louvável a intenção de dar um bote em quem os derrubou.

Sorrateiramente, este foi o melhor episódio desse início, uma vez que todos os personagens estavam movimentados na e pela trama. Só um time de escritores tão chefs poderiam nos presentear com um prato aguçado de humor, estratagemas e articulações tão bem temperado.
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About José Eduardo Brum

Formado em Comunicação Social (jornalismo), estudante de Direito pela UFJF e escritor desde 2008 do hupokhondria.wordpress.com, além de ser ator, iluminador, divulgador, produtor e outras funções que o teatro requisitar. Apaixonado por ficção televisiva, os primeiros contatos foram com Xena, Ally Mcbeal e Sex and the City, sendo afixionado e devotado por Six Feet Under, The Good Wife, Pushing Daises, Ugly Betty, Mad Men e Penny Dreadful.
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