Season Review: House of Cards, 4ª Temporada

Spoilers, spoilers everywhere!

A 4ª temporada de House of Cards trouxe uma vertente surrealista, parafraseando Octavio Paz, "abolindo esta realidade que uma sociedade vacilante nos impôs como a única verdadeira; para além de criar uma arte nova, criar um homem novo," uma vez que a temporada anterior foi, essencialmente, baseada na realidade. A última temporada do showrunner Beau Willimon mesclou bem as reviravoltas além da carreira política e enfatizou um clímax delicioso em que nós não temos ideia alguma de onde isso tudo vai parar ou como vai acabar.

Além disso, a estreia da temporada (04 de março) não poderia ser num dia mais oportuno (e eis um golaço no placar das mídias sociais da netflix!), a Operação Lava-Jato conduziu o ex-presidente Lula à sede da Policia Federal ao passo que o serviço de streaming acompanhou de perto a movimentação e estampou capas de jornais e revistas influentes no Brasil, ainda que de forma fictícia, contrapondo notícias reais sobre a política brasileira com as personagens da série, enquanto que, no Estados Unidos, a corrida à Casa Branca, as primárias acontecendo e a intensificação dos debates dos presidenciáveis foram um reflexo daquilo que Underwood encararia ao longo de 13 episódios seguindo a trilha 2016 de campanha eleitoral, mas também focando em pequenos (porém relevantes e necessários!) arcos.

O título da série nunca fez tanto sentido na temporada vigente, se analisado de forma literal e, por isso, nós do Freaks convidamos você para acompanhar este 'tutorial adaptado de como fazer um castelo de cartas' e todos os plots que fizeram a 4ª temporada de House of Cards como se fosse a primeira parte de duas etapas ou um grande rolo de filme para a grande explosão no final.

"Com a técnica correta e um pouco de paciência, você pode construir um castelo de cartas;"

A ascensão de Frank à presidência dos EUA pode ser resumida pela frase de sua sogra, Elizabeth, à recém chegada Leanne: "watch your step, there's blood on the floor." Ah, se ela soubesse... pacientemente, os Underwood colecionaram mais que esqueletos no armário, sim uma lista considerável de velhos fantasmas com rostos conhecidos: os simpáticos Remy e Jackie e um pouco de redenção a ambos no fim das contas; Raymond Tusk sendo trazido pelo vice decorativo aka Blythe; Kate, Tom e Lucas e uma tríade jornalística que aproximou a verdade dos holofotes e deu um gás completamente novo para a trama com a tentativa de homicídio à figura mais importante do pais; Tom Yates, Viktor Petrov e Heather Dunbar, formando um recorte maravilhoso de plots menores e bem sucedidos; Zoe e Peter, presentes nas memórias agonizantes de um Frank sedado na fila por um transplante de fígado e, aquele que considero o mais importante e responsável pelo sucesso da temporada, o incrível inimigo capaz de destruir um homem com tantos segredos, a esposa que sabe (quase) todos eles! Se na temporada anterior os pecados do casal foram soterrados, na atual os mesmos foram cavados para fora, em sequências sombrias e de duros golpes.

Neste momento, temos a construção de dois castelos de cartas, paralelos, mas que fundiram-se na season finale. Claire havia cansado de ser uma sombra para o marido, de ser uma plataforma de votos, de ser a primeira-dama; ela queria mais... ela precisava de mais. Assim, seja buscando apoio para candidatar-se em seu Estado de origem, ameaçando o marido com um pedido de divórcio antes da 'Super Terça-Feira' ou manipulando o vice-então-presidente enquanto Frank esteve hospitalizado nas negociações com Petrov, ela construiu uma sólida base para empilhar seus objetivos, cativou sua própria Doug Stamper aka Leanne Masters e "fez o sol nascer", numa analogia às memórias da infância contidas na figura paterna que a fazia acreditar que ela era incrível. E é. E mostrou a todos que Underwood era mais que a figura masculina, agora também imprimia o rosto feminino de quem engoliu as noções matrimoniais e fez jus à palavra parceria, em sua totalidade.  

"As cartas de tamanho padrão funcionam melhor para isso;"

Trump destaca-se nas pesquisas como o candidato republicano à presidência, seguindo um rastro de ascensão e aclamação pública, o que não difere muito do que Frank Underwood precisa galgar se quiser continuar na Casa Branca, eles parecem pertencer ao princípio 'Midas reverso' ao deixar um rastro de degradação em tudo o que tocam. Para tanto, foram inúmeras trapaças, mentiras, assassinatos, corrupção. A instabilidade no governo de Francis nos remete a uma delicada reflexão acerca do momento político atual dos EUA. Seu caráter é contestado em rede nacional, a gasolina aumenta, cada vez mais - e o povo o odeia por isso - o secretário de imprensa sabota sua campanha, existem ameaças de guerra com a Rússia e com o ICO (alô, ISIS, olha você ai!). 

Seu discurso populista a la Nixon ganha mais força; assim como temáticas importantíssimas são trazidas para debate, como a resistência negra e as discussões sobre igualdade e representatividade nas figuras da deputada Doris Jones e sua sucessora/filha Celia, passeando por uma foto antiga do pai de Francis com um membro da Ku Klux Klan; a inexistente relação diplomática entre EUA e Rússia - uma vez que Putin, digo, Petrov tem sido um ditador acusado de matar cidadãos russos -; o controle de armas e o foco no novo adversário depois do consistente enfraquecimento de Dunbar Will Conway - jovem, militar, patriarca de uma 'família perfeita', mas tão conivente, narcisista e egocêntrico quanto seu oponente; sendo que a única forma dos Underwood lidarem com os Conways é convencendo o público de que eles vão "além" no casamento.

"Tente construir a base do castelo;"

E o castelo quase ruiu. Com a emblemática saída de Claire, no final da 3ª temporada, Frank viu seus oponentes abrirem 12 pontos nas primárias, viu seu nome ser questionado no partido como o candidato à Presidência, viu a crise matrimonial ser jogada na mídia, viu a eleição quase escorrer pelos dedos enquanto a esposa expunha seus segredos - debaixo de uma camada de sorrisos e postura resignada. As ambições engolidas pela primeira-dama voltaram em forma de raiva e Elizabeth, mais uma vez, soube resumir o sentimento: "put [Frank] in his place." Claire conseguiu impor-se à figura do marido, atingiu seus objetivos com facilidade e esteve um passo à frente de Frank antes mesmo da segunda metade da temporada, assistindo de camarote enquanto ele sofria os golpes na campanha - ela era a única pessoa hábil para destruí-lo ao passo que é a única que o entende totalmente. 

Quando pensamos que Claire não poderia ficar melhor, ela toma a série pra si sem precisar de nenhum plot bombástico ou sujeitar-se a fazer algo grandioso, Robin Wright esteve impecável durante os 13 capítulos! E o que falar de Elizabeth Hale que mal chegou e eu considero pakas? Se pensávamos que Claire era bad-ass, sua mãe conseguiu surpreender ainda mais, principalmente no ódio mortal que sente pelo genro. Ela fez a filha chorar, ela fez a filha demonstrar um momento de vulnerabilidade, ela endureceu a própria cria em cenas belíssimas em que gritava, já sem peruca numa cabeça pelada pelo câncer, ser a mãe ou quando morreu, num momento duro e, ao mesmo tempo, poético de assistir. "I hope he dies," Elizabeth foi a voz interior de Claire quando Frank levou o tiro porque, se isto acontecesse, seria o momento dela, da viúva enlutada, um foco de dimensões estratosféricas para direcionar a campanha política pra ela, para tentar sair da sombra, para não mais estar presa em Dallas ou no posto de primeira-dama... Mas ele vive depois de um transplante com o selo Doug Stamper, o povo se compadece e "Blunderwood" não mais ecoa pelas ruas. A diferença, agora, é que os desejos dela não mais são negligenciados e, atropelando Cathy - ou qualquer pessoa que atravesse seu caminho - a chapa Underwood-Underwood é formada. Quem pode segurar esse casal, pelo amor de Deus??

"Se suas cartas deslizam ou caem, é possível que elas sejam muito novas e não tenham sido usadas;"

"But corruption, that's a matter of perspective," no dicionário Underwood, corrupção é sinônimo de trabalho. John Hinckley Jr, mentalmente doente, tentou assassinar o presidente Reagan ao passo que Lucas Goodwin, aparentemente desequilibrado mentalmente, disparou contra o presidente Underwood. Ainda que Ronald não estivesse tentando a reeleição na época, seus índices de aprovação subiram significadamente. Adivinha com quem mais isto aconteceu? Levar um tiro e parar na lista de transplantes foi a melhor coisa que já aconteceu com Francis. Pressionado para demonstrar uma mão de ferro no que diz respeito ao militarismo, Frank decide invadir o Oriente Médio, usando a política interna para instaurar um clima de guerra; paralelamente, temos George Bush, o pai, na Guerra do Golfo e seus discursos ufanistas enfatizando a cultura do medo, proposta sugerida por Francis nos minutos finais da temporada. 

O castelo pode deslizar, mas ele não cairá facilmente, ainda que as cartas novas sejam colocadas na mesa. A volta de Lucas e os rastros deixados por ele foram de suma importância para que Tom criasse alguns obstáculos no caminho do presidente. A imprensa sempre teve um papel importante, por vezes determinante em algumas situações e, enquanto Claire negociava com Yusuf Al Ahmadi, Frank dava a Tom uma dose de raiva misturada com ameaças. Lembremos de Zoe empurrada nos trilhos. Lembremos de Janine paranoica e dependente de Xanax. Lembremos de Lucas encarcerado na mente e no corpo. Tom não está tentando retornar para o emprego no The Washington Herald, não está vingando os amigos dizimados, de alguma forma, pelos Underwood, ele está buscando jogar no ventilador a maior quantidade de fatos para que outros como ele prestem atenção na ascensão do presidente e investigue o que há por trás de todos os arranjos feitos durante esta caminhada. O final em House of Cards não será feliz e isso me deixa muito contente!

"Não fique nervoso. Se não conseguir nas primeiras vezes, seja paciente. É preciso que suas mãos estejam bem tranquilas na hora de colocar as cartas;"

Cínico sobre a política, o jornalismo e a própria série, Beau despediu-se de forma magistral, tecendo todas as tramas possíveis à espera de um gran finale, não permitindo que nenhum detalhe lhe escape aos olhos. Os Underwood têm em sua lista sepulcral uma jornalista, um político e alguns danos colaterais (olaaaaar, Rachel); perderam Meechum - e eu nunca vou superar as cenas em que a mão dele é desenhada e, tempos depois, relembrada por Francis - e não sei como Doug vai estar depois de mais um plot chatíssimo que de nada me interessa. Agora vão tentar manter o poder instaurando o medo. Vitimando centenas. Tentando camuflar uma história já publicada cuja tentaram silenciar a todo custo. E a resposta a tudo isso? Um pronunciamento nacional bem orquestrado para os jornalistas do Herald, mas usando a desculpa do ICO. Claire, agora companheira de chapa, estava ao lado e assentindo com a cabeça enquanto tivemos um Frank, afirmando em claro e bom som, ameaçando quem quer que atravesse seu caminho: "we make the terror."

Confirmada para a 5ª temporada, e pedindo a Deus que seja a última porque eu não imagino o que mais eles podem querer nem onde pretendem chegar e também porque eu encarei essa temporada como 'o começo do fim', House of Cards me deixou com uma sensação gostosa depois de maratonar seus episódios e um gostinho de quero mais. Odeio forte. Amo forte. É nível vilão de filme bem produzido e livro bem escrito, quero loucamente que sejam bem-sucedidos em todas as ideias, mas também os quero agonizando ao prever a destruição iminente. Alguém será capaz de pará-los? Alguém terá a manha de explicar como pôr um freio nestes dois? American Works funciona mesmo? Frank Underwood será o novo presidente, agora eleito, dos EUA? Vem, 2017, são muitas perguntas esperando por respostas e nenhum Seth fazendo conferência...

PS.: Robin Wright dirigiu quatro episódios nesta temporada e só podemos dizer uma palavra: maravilhosa! Mas, mais alguém sentiu falta dos diálogos do Frank com a câmera? 
PS¹.: Os simbolismos contidos no capitulo 42 - a água virando sangue quando Frank abre a torneira e a cena de luta entre o casal - remetem à desestabilização emocional que ele enfrentava, principalmente, ao ver seu poder ser questionado de dentro pra fora.
PS².: Ellen Burstyn (Elizabeth Hale) não poderia ter sido melhor escolhida para o papel da mãe de Claire. Vem indicação de Emmy como atriz convidada por ai?
PS³.: Ainda não superei a morte de Meechum. RIP Meechum </3

Prêmio Aleatoriedades:

Troféu Dancinha do Renato Russo:


Troféu Virgulino Ferreira da Silva:

Você é um filho da puta!
Você é um filho da puta, Sr Presidente!
Troféu "Cadê tua voz, Miriam?":

Você se arrepende de não ter tido filhos?
Você se arrepende de tê-los?
Troféu "Menas conversa e mais profissionalidade":

Eu estou cansada de tentar ganhar o coração das pessoas.
Vamos atacar o coração delas.
Troféu "It's so fluffy I'm gonna die":


Troféu "Sorriso amarelo do papai":

Eles dizem que ele era um vampiro.
Bem, não se preocupe, você está seguro aqui. Não existem monstros na Casa Branca.
Troféu Sérgio Malandro:

Não, nós não matamos ninguém.
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About Vanessa Reis

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